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Por: comKids (Redator)

O comKids entrevistou a professora Maria Carmen Barbosa, sobre o interessante Programa de Alfabetização Audiovisual (PAA), que desde 2008 vêm sendo implementado em escolas públicas de Porto Alegre (RS) e fora delas. A conversa, realizada em fevereiro de 2015, aborda temas como a inserção do audiovisual e da sua tecnologia nas escolas, arte e ciência, linguagens e seu ensino, sensibilidade, prática e difusão.

Como é possível se pensar a inserção do audiovisual nas escolas? Qual a importância desses conteúdos para a formação dos jovens e crianças dos dias de hoje? Em que ponto estão as iniciativas escolares atualmente?

Confira as respostas abaixo, no texto completo da entrevista.

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Oficina de Introdução à Realização Fotográfica e Audiovisual na EMEF Morro da Cruz, ministrada por Guilherem Lund e Laura Mansur.

 comKids – Quando teve inicio o programa de alfabetização audiovisual?

O Programa de alfabetização audiovisual vem atuando na cidade de Porto Alegre, RS, desde 2008 tendo como objetivo a construção de um conjunto de ações que combinem o acesso, a reflexão e a produção audiovisual no âmbito educacional.

comKids – A quem esse programa é dirigido? De onde partiu essa necessidade?

O programa teve como endereçamento inicial os estudantes da rede pública de ensino e seus professores, pois acreditávamos que as crianças de classes populares deveriam ter acesso a produtos audiovisuais – filmes, animações, fotografias – de maior qualidade estética e nao apenas aqueles que as grandes redes de televisão e as locadoras propiciavam/ofertavam. Porém, ao longo dos anos também especialistas no campo das mídias audiovisual – artistas, produtores, fotógrafos, cineastas, pesquisadores – que participavam e contribuíam com a qualificação do programa em projetos de formação começaram a estabelecer diálogos com professores e estudantes constituindo assim novas interrogações e outras possibilidades de respostas, aprendendo, também, a partir desta relação com a escola. Creio que aí estabelecemos um verdadeiro diálogo entre os dois campos.

comKids – O que a linguagem audiovisual tem a oferecer aos professores, a sua formação e desempenho ?

Na formação inicial, realizada em licenciaturas, os jovens professores nem sempre têm a possibilidade de discutir a sociedade contemporânea, a significação da linguagem audiovisual na vida dos jovens e dos adultos e a relação da mídia (e do consumo) na constituição das subjetividades das crianças, jovens e adultos definindo seus interesses e incidindo sobre os processos cognitivos. Portanto, a formação propiciada pelo programa pretende ofertar elementos críticos/teóricos e técnicos para que os professores possam ampliar sua análise da cultura audiovisual, no contexto de uma sociedade de espetáculo, e assim repensarem sua programação escolar – conteúdos e metodologias – incluindo, de forma crítica, o audiovisual. Pois as vias da aprendizagem, da expressão e da comunicação das crianças e jovens estão, na atualidade, permeadas pela relação com a tecnologia audiovisual.
Compreender esta linguagem, saber utilizá-la na formação dos estudantes certamente contribuirá no desempenho de todos: escolas, professores e estudantes.

comKids – Você acredita que há uma abertura da escola em relação ao uso do vídeo, do cinema e da internet?

Sim. Há um primeiro movimento das escolas no sentido de perceberem que a fotografia, os vídeos, a internet fazem parte da vida dos estudantes. Que eles, continuamente, estão utilizando estes instrumentos para gerir suas vidas cotidianas. Poderíamos denominar como um reconhecimento da tecnologia, mas isto não significa que haja a autorização no uso. As escolas ainda debatem se devem ou não, por exemplo, deixarem os alunos com seus telefones e micros entrarem na escola, se a realização de uma narrativa fílmica tem o mesmo valor que uma redação escrita. Este é um dos dilemas da escola.
O segundo momento, que seria o de intersecção, isto é de positivar a tecnologia e realmente avaliar o papel do audiovisual como instrumento de formação e desenvolvimento cognitivo dos estudantes na escola é algo que está começando agora, principalmente em experiências isoladas. Isto é, conceber o audiovisual não apenas como um recurso complementar, função que cumpre e que também é importante, mas também como importante estratégia educacional para a produção e a reflexão sobre o conhecimento, a compreensão do mundo, o modo de comunicar pontos de vista. Porém, esse movimento de mudança na concepção da presença do audiovisual na escola ainda está em fase inicial. No seminário que fizemos em 2014 conhecemos diferentes ações ligadas ao audiovisual realizadas em todo o país, isto é estamos fazendo este processo a partir da visibilidade das possibilidades de uso. Creio que a sistematização destas ações, a teorização sobre elas, podem fornecer as bases para criação de uma política do audiovisual nas escolas.

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A publicação “Escritos de alfabetização audiovisual”, Maria Carmem Silveira Barbosa e Maria Angélica dos Santos (orgs.)

 

comKids – De que forma você acredita que o cinema deve ser introduzido na prática escolar?

O cinema deve estar presente na escola desde o início da escolarização. Com as crianças menores como entretenimento, como gerador de interrogações sobre o mundo, como referência a outros jeitos de viver, brincar, conversar – a ideia da janela para um mundo maior. Trazer o longe para perto, criar estranhamento. Ofertar um repertório imagético e narrativo diferenciado que ofereça elementos imaginários distintos. Também o cinema pode contribuir com a formação narrativa das crianças, realizada basicamente pela literatura, mas que no cinema se diferencia e amplia com a contribuição da imagem, da música, dos movimentos. Também as oficinas de slow motion contribuem muito com a possibilidade de promover outras experiências de pensar e inventar das crianças ao produzirem narrativas com a materialidade da massa de modelar ou diferentes objetos. O audiovisual tem uma característica básica que é ser interdisciplinar e unir arte e ciência, isto é, rompe com os princípios disciplinares da escola e a polarização entre conhecimentos conceituais e analíticos (ciência) e conhecimentos que emergem de saberes sensíveis (arte). Ao longo da experiência escolar, o cinema pode ser tanto um importante aliado para discussão de temáticas escolares, como também para construção de diferentes modos de perceber, na construção pelas imagens de outras verdades, na constituição imaginaria de outros futuros (sonhos), da compreensão da diversidade do mundo – humano e inumano.

comKids – Falando de cinema, vídeo e televisão… como a linguagem audiovisual pode potencializar a educação?

Há vários modos de pensar esta intersecção. Para mim, o mais importante é que seja uma relação ativa. A potência educacional das produções audiovisuais, numa escola escolástica como a nossa, é de provocar/promover a ruptura com o estatuto reprodutivo do conhecimento escolar ao favorecer a constituição de uma visão interpretativa e reconstrutiva do conhecimento. É claro que a transmissão de conhecimentos entre as gerações é fundamental, mas uma escola não pode se satisfazer apenas em “encher cabeças”. A oferta de diferentes modos de acessar saberes e informações permite elaborar estratégias que contemplem processos de interpretação e produção cognitiva para que o conhecimento, algo verdadeiramente instável, não se petrifique ou seja apenas um decalque no aluno. A escola pode desafiar visões interpretativas ao oferecer apenas um esboço a ser redesenhado pelo próprio sujeito. Outro elemento importante do audiovisual é que ele oferece a possibilidade de uma educação dos sentidos, da sensibilidade, da emoção e de como estes “sentimentos” podem se transformar em posicionamentos na vida, em conhecimentos teóricos e em ações práticas. Especialmente penso que o audiovisual exige o trabalho coletivo, rompendo com a característica individualizada da escola, e também possibilita que os estudantes possam encontrar meios, numa atividade tão complexa, de identificar alguma tarefa que lhe cause desafio e prazer.

comKids – Nós brasileiros, valorizarmos bastante a cultura oral e a cultura da televisão. Como a cultura televisiva cotidiana pode ser trazida para as praticas educacionais de uma forma a ser integrada no que chamamos de alfabetização audiovisual?

A oralidade não é o pré-mundo da escrita, eles são contemporâneos. Passamos meio século dizendo que uma imagem vale mais que mil palavras para tentar romper a ideia de que a escrita tem um valor superior à imagem. Não acredito nisto, penso que a imagem, a palavra escrita e a fala são capacidades humanas que iniciam sua constituição nas relações informais na sociedade: na família, no parquinho, e devem ser aprendidas de modo sistemático na escola. Aprender a falar, a escutar, olhar, perceber e constituir um diálogo é condição primeira. A cultura televisiva é geralmente emudecedora do outro. Creio que um primeiro poder da escola é aproveitar para romper com o mutismo do assistir TV para o diálogo da interação com os programas televisivos. Por exemplo, crianças pequenas não leem o Monteiro Lobato mas conhecem a Emília e o Visconde pela TV. Os personagens televisivos podem entrar, com facilidade, na experiência da alfabetização escrita desde conhecer como se escreve o nome do personagem até a construção do desejo de ler o livro. A música do personagem pode ser reinterpretada na linguagem plástica e transliterada em escrita.

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5o Festival Escolar de Cinema

 

comKids – Quais as questões que a nova legislação pode trazer para a escola? Poderia falar sobre a lei?

Creio que a melhor contribuição da lei é autorizar o audiovisual como objeto de conhecimento digno de entrar nas escolas. Como um objeto cultural da cena contemporânea que pode redimensionar o conceito de escola. Será muito importante que a regulamentação da lei possa trazer a discussão ampliada da relação do audiovisual com a aprendizagem, as culturas infantis e juvenis, a constituição subjetiva dos sujeitos, o papel da narrativa na constituição de uma visão de mundo e dos sujeitos.

comKids – Que benefícios trará para os professores e estudantes?

Conectar o mundo da vida e o mundo do conhecimento escolar. Ofertar para ambos outros modos de se pensar e produzir realidades. Construir conhecimentos e intervir no mundo. Principalmente tendo em vista a democratização da tecnologia e das possibilidades de comunicação.

comKids – Como formar profissionais preparados para desenvolver um trabalho interessante de alfabetização audiovisual ?

Este é o desafio do programa, temos apostado em ofertar inúmeras experiências de formação: estudar, escutar pessoas com diferentes formações que transmitem pontos de vista diferenciados, aprender fazendo junto com quem sabe, acompanhar processos de produção, realizar com os estudantes e apresentar os resultados para serem discutidos no coletivo, ver audiovisuais de qualidade e discutir diferentes aspectos. Pensamos que os caminhos podem ser múltiplos, interessa o desejo e o compromisso dos educadores com sua autoformação.

comKids – Que tipo de formação devem ter esses profissionais?

Em nosso programa trabalhamos com professores com licenciatura em geografia, filosofia, arte, pedagogia, isto é todo aquele que quiser se aventurar. A formação nunca é obrigatória, é sempre uma escolha. A formação técnica é a bagagem que cada um deles traz de sua vida e que vai sendo acrescida na troca entre pares e nos cursos que vamos ofertando. Cada vez mais os jovens professores tem maior domínio da técnica mas algumas vezes temos problemas com a falta de equipamentos e de uma internet mais potente na escola.

comKids – Você acredita que a alfabetização tenha que se dar também por aulas praticas de realização de curtas, roteiros, etc.? Por que?

A compreensão da alfabetização audiovisual que defendemos no programa está baseada na ideia de que diferentes caminhos levam à constituição da formação: o acesso, a reflexão e a produção. Procuramos ofertar ações para os professores e estudantes que incidam nestes três pontos. Assim como os estudantes nos Festivais Escolares de Cinema tem acesso às produções selecionadas, os professores tiveram, antes de assistir com os alunos, uma sessão com debatedores e puderam compartilhar suas impressões, ideias e projetos em relação aos filmes. A prática de realização de curtas tem sido também uma das dinâmicas da alfabetização audiovisual pois ela coloca em evidencia, em ação, todas as aprendizagens da alfabetização e é uma das mais reconhecidas pela escola – envolve distintas disciplinas, formaliza um produto que pode ser compartilhado com os demais colegas e famílias.

comKids – Que experiências brasileiras você destacaria na direção das praticas do audiovisual que têm relação com a educação?

Este ano, provavelmente em fevereiro, colocaremos na rede, através do PAA, um livro virtual com os resumos expandidos e textos dos trabalhos que foram apresentados no II Seminário Internacional: dentro e fora da lei. A leitura dos resumos pode dar a todos a ideia das propostas em andamento em todo o Brasil.

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Oficina de Introdução a Realização Audiovisual na Escola Municipal Victor Issler