Colunista

Garatújas Fantásticas

Por: Garatújas Fantásticas

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Da esquerda para a direita: Tchissola, Lelinha, Ndalu (Ondjaki), Kiesse e Dilo, personagens de Bom Dia, Camaradas. Imagem do site de Ondjaki: http://www.kazukuta.com/ondjaki/bom_dia_camaradas.html

É preciso admitir: a gente sabe muito pouco sobre a África. Eu, filho dos anos 1980, li na escola meia dúzia de linhas sobre o continente nos livros e apostilas de história. Meia dúzia de linhas, aliás, que falavam apenas sobre escravidão, pobreza e fome. Uma imagem triste, reforçada pelo noticiário que estigmatiza em vez de explicar.

Nossa chance de virar o jogo da desinformação é ler, e ler para as crianças as outras narrativas que o continente oferece. Há muitos retratos africanos em livros e filmes (alguém aí já assistiu ao Kiriku?), mas o que mais me tocou até agora foi o livro de memórias Bom Dia, Camaradas (Companhia das Letras, 136 págs.), do escritor angolano Ondjaki. Leia um trecho do livro em PDF aqui.

Edifício Anangola, construção modernista em Luanda.

Edifício Anangola, construção modernista em Luanda.

Ondjaki, pseudônimo de Ndalu de Almeida, também cresceu na década de 1980, e suas lembranças fluem levemente na obra, que eu gostaria de ler em voz alta para todas as crianças que conheço, e mandar suas imaginações para Luanda, capital de Angola.

O livro pode ser visto como uma pequena aula de história. A infância de Ondjaki, marcada pela tensão da Guerra Civil de Angola, é uma infância marcada pela relação com o passado colonial português, com o projeto socialista do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e com um futuro que parecia promissor.

Apesar do contexto bastante complicado, as memórias de Ondjaki são essencialmente alegres. Há a excitação das descobertas em cada parágrafo, mesmo quando suas expectativas não correspondem às das pessoas em seu entorno.

Vale aqui um exemplo.

A imagem que o garoto constrói de Angola é diferente da Angola vista por António, o funcionário da casa onde morava, e da Angola vista pelo olhar europeizado de Dada, a tia portuguesa que aparece para visitá-lo em Luanda.

Esse triângulo de relações é mediado constantemente pelo Estado, presente nas figuras dos professores cubanos, dos soldados russos, dos soldados da FAPLA (Forças Armadas Populares de Angola) e de seu símbolo máximo, o presidente de Angola, que passa de carro com uma escolta que deixa tia Dada de queixo caído.

Em um cenário de guerra e mudanças sociais profundas, as lições políticas são frequentes. Ao falar sobre o governo sul-africano do apartheid, inimigo do MPLA, Ondjaki conta que descobre a história de Nelson Mandela e a segregação. E escreve:

“então também percebi que, num país, uma coisa é o governo, outra coisa é o povo.”

Convenhamos: questionar a ideia de “inimigo” é uma enorme tarefa para uma criança.

Por trás das lições políticas, há o imaginário das metralhadoras, de milícias, dos tanques de guerra, dos tiroteios e das mortes. Mas há também os abacateiros carregados, o cheiro do peixe seco, as amizades e as pequenas alegrias do dia a dia.

Classificado como literatura adulta, Bom Dia, Camaradas é acima de tudo um livro de criança para criança. Basta que um adulto se prontifique a lê-lo em voz alta, divirta-se com as palavras do português angolano (machimbombo, mô camba, mudiaê e por aí vai) e coloque a África no mapa das crianças – para valer.

Unknown

Bom Dia, Camaradas

Ondjaki

Companhia das Letras

136 págs.

Site do autor:

http://www.kazukuta.com/ondjaki/

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Com foco em arte e literatura, o Garatujas Fantásticas é uma iniciativa do Estúdio Voador, uma ponte para que adultos e crianças experimentem o mundo juntos, troquem olhares e experiências.