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Por: Filipe Jahn (Redator)

(nova edição: dia 28/05 de 2014. Primeira edição: festival comKids – Prix Jeunesse iberoamericano 2013)

Programas infantis costumam ter uma dicotomia bem clara, seja sob o ponto de vista do conteúdo ou de formato, entre o que é certo e errado. Isso acontece principalmente porque os adultos envolvidos partem da noção que essas obras devem ensinar com objetividade tal polarização. Já para Jan-Willem Bult, a (talvez única) regra é mais direta: ouvir as crianças. Para ele, obras infantojuvenis precisam essencialmente colocar seu público no protagonismo, agindo como elas são, naturalmente. Essa é a melhor forma de criar uma conexão e permitir que crianças reflitam sobre seus interesses, direitos e responsabilidades.

Além da JWBfoundation, Jan-Willem atualmente é responsável pelo departamento de mídia para crianças e jovens da Free Press Unlimited, pela qual viaja por diversos países dando suporte na criação e produção de mídia para crianças.

Na entrevista abaixo para o Portal ComKids, Jan fala sobre essas experiências, como enxerga a produção audiovisual em outros países, especialmente da América Latina e da possibilidade de existir uma parceria mais harmônica e correta entre editorial e propaganda. Mas sobretudo, Jan fala de sua incontornável filosofia de TV infantojuvenil: programas devem fazer as crianças imaginar.

Com os desafios históricos entre gerações, qual é o ponto de encontro entre elas hoje? Qual é o melhor jeito de criar um diálogo com a infância?

Atualmente as crianças de hoje parecem, ou passam a imagem de serem mais adultas, mas fundamentalmente elas serão sempre crianças. Isso quer dizer que você pode contar uma boa historia e elas vão derreter. Com as inovações tecnológicas há plataformas diferentes e essas possibilidades aumentam, assim como o desafio de achar a linguagem certa. Nesse sentido, há muito a ser desenvolvido. Só que não vejo tantas mudanças em como esse público é por dentro. Temos mais ferramentas e circunstâncias, mas as bases continuam sendo as mesmas: respeitar e estimular o potencial criativo que elas têm.

Subestimar as crianças é uma armadilha fácil de cair, no momento de desenvolver um programa para elas. Como evitar?

Não é fácil. Estava conversando com alguém algum tempo atrás sobre como em casos de divórcio o juiz ainda não escuta o que as crianças pensam e querem. A nossa historia é assim, nos esquecemos da posição delas. E temos um papel crucial na emancipação da criança. É um sinal para adultos que eles têm historias para contar. Tenho a forte convicção de que o meu trabalho exige mais responsabilidade do que muitas pessoas atribuem. Quando fui para Cuba, houve uma expectativa de que eu seria muito crítico ao trabalho feito lá, por ser de uma geração que trata de assuntos como guerra fria de uma maneira muito polarizada. Mas no momento em que começamos a debater, entenderam que meu objetivo é outro. Como falei para o ministro de educação de lá, você tem uma boa mídia para crianças quando colocam elas na tela para inspirar as que assistem em casa. E a qualidade dessa mídia reflete a qualidade de uma nação. Podemos ver nos Estados Unidos, por exemplo, em que há uma coisa capitalista, de mercado, onde se vende. Já no meu país há um interesse maior em cultura e menos em marketing. Tratamos mais de temas que são importantes para as crianças.

Qual tem sido a influencia das inovações tecnológicas sobre a concorrência com outros suportes de programas infanto-juvenis?

Geralmente você pode dizer que o poder da televisão diminuiu e outras plataformas mostraram ótimas maneiras para educar uma audiência. Mas ao mesmo tempo, no nosso caso, existe uma obrigação de alcançar nosso público-alvo, enquanto veículo de comunicação público holandês. Assim, com os aplicativos, jogos e redes sociais virtuais, nos últimos 15 anos temos procurado desenvolver abordagens de mídia cruzada. Produzimos programas de televisão que vão para o site assim como vídeos que vão primeiro para a web e depois para a televisão. O papel da TV mudou nos últimos anos, em alguns casos tem um papel secundário, mas de maneira geral ela ainda é protagonista. Muitas pessoas com um projeto na internet de bons resultados pensam na televisão quando querem ter uma abrangência maior. Porém hoje é preciso se perguntar antes o que está sendo feito na web. Há vídeos, um canal no Youtube, uma conta no Twitter? Tem muita coisa interessante antes desse mundo muito competitivo e caro da TV. Por exemplo, promovemos uma ação para que crianças produzissem vídeos e nos enviassem para serem publicados na internet. Nos demos conta que não precisávamos colocar a televisão no centro. Além disso, temos que levar em conta o quanto a repetição é importante para esse público. E com a web, é possível assistir uma obra quantas vezes quiserem. Ou seja, agora você produz algo para a televisão, mas que vai ser muito mais utilizado em outras plataformas. Então quando crio um show, atualmente sempre penso em como minha audiência vai vê-lo depois da quinta vez. Ainda vai ter o bastante para que ela imagine? Os melhores programas fazem as crianças imaginar.

A regulação das leis sobre a propaganda infantil tem sido um tema recorrente no Brasil, ainda que a autorregulação continue a prevalecer. Sob o seu ponto de vista, como um canal pode alinhar bom conteúdo editorial com a necessidade comum de ter anunciantes?

No meu país, o governo tem um recurso destinado aos canais independentes. Mas eu penso que geralmente é possível ter uma cooperação entre os setores. Isso se você tiver um editorial forte, com um corte claro em relação à propaganda. A propaganda sempre quer entrar, porque seus profissionais não costumam ser criativos. Acham que o ideal é estar no meio do programa, para as pessoas comprar. Na maior parte da Europa queremos fazer uma separação completa. Mas penso que é possível o exemplo que eu vi na TV Brasil. No final do show aparece a logo da Petrobras com a legenda “oferecido por”. Acho uma boa solução. Desse ponto de vista, o Brasil está na frente, porque aqui temos problemas para trazer esse tipo de negócio. Na Holanda cortaram 30% do nosso orçamento e por sermos um órgão público, não podemos trabalhar com o mercado. Ou seja, se trata de um valor completamente perdido. Por essas razões vejo que o Estado não pode sempre financiar sozinho a TV. No Prix Jeunesse Iberoamericano conheci produtores e publicitários e vi que é possível reunir essas pessoas para achar maneiras de financiar programas mantendo a independência da mídia. Na Europa quase não há conferências em que o mercado encontra a produção. Acho interessante essa aproximação, no sentido de o mercado apoiar programas com responsabilidade social e obedecendo a lei.

Alguns programas da KROyouth atingiram bastante sucesso colocando crianças para fazer ações cotidianas, como cozinhar ou desmontar objetos. Como percebeu que isso iria atrair a atenção desse público?

Essa é a base da minha filosofia de TV para crianças. Quando era jovem, assistia ao show Vila Sésamo, que tem apenas bonecos, todos interpretando um papel. E quando comecei, eu me perguntei se adultos gostam tanto da realidade, por que não damos às crianças também? Já nas ficções eu gostaria que tivessem os pequenos mesmo, sem falar como adultos, agindo naturalmente. Ou seja, às vezes até se comportando mal. Então produzi um documentário sobre o que as crianças da pré-escola gostam de fazer. Foi daí que surgiram as ideias de programas em que elas cozinham e usam a caixa de ferramentas. O estranho é que apesar desses shows serem muito respeitados e ganharem prêmios, quase ninguém copia. Muitos chegam e dizem “olha como as crianças se divertem!”, porém não copiam porque acham que os pais vão reclamar, acham perigoso colocar uma faca na mão de uma criança. Mas o que isso tem a ver? Programas assim dão ideias, estimulam a criatividade. Isso é o que importa. Eu me vejo como alguém completamente comprometido com as crianças. Estou interessado em trazer valores, estimular o engajamento, dar os melhores programas. E vi que consigo isso assim.

Outra característica das suas produções é tratar abertamente de assuntos considerados tabus, como morte ou bullying. Em sua experiência, como você enxerga esses temas sendo tratados no seu e em outros países?

Eu sempre penso que há muita diferença entre o que fazemos aqui e em outros lugares, mas de fato temos mais liberdade. Há países que estão melhorando, principalmente no norte da Europa. Na Alemanha, Bélgica, você pode achar programas desse tipo. No entanto ainda há uma hesitação geral. Na América Latina eu vejo um desejo de luta ainda no começo. Porém apenas trazer esses tópicos não resolve. É sempre importante ver o que a criança pensa, não somente o adulto. Cito um caso. Vi que as crianças da pré-escola costumam ser bastante espirituais, gostam de assuntos relacionados a esse tema. Então pensei, por que não fazer uma série de ficção para elas sobre morte? A questão é que eu podia facilmente falar sobre um jovem que o pai ou a mãe morreu. É o que acontece na maioria dos programas. Resolvi falar com meu público e descobri que essa situação seria muito abstrata, porque eles não conheciam os pais de outros. Podiam achar triste, mas só. A solução encontrada foi simples. Se o cachorro do garoto morresse, a conexão seria muito maior. Então na série o protagonista enterra o animal no quintal de um vizinho rico e sempre volta até o túmulo. Em um episódio um gato suja a sepultura e o garoto vai por impulso atrás dele, para jogar água, na companhia de um amigo. Isso mostra como uma criança é. Falamos do luto e da raiva, mas também de felicidade, ao mostrar o protagonista e seu amigo se divertindo. Isso tudo poderia ser considerado comportamento impróprio, mas ninguém reclamou, todos que assistiram entenderam a reação do personagem.

Com a JWBfoundation você costuma dar workshops e debates em diversos países. Como você vê os avanços da produção de mídia de qualidade para criança, especialmente na América Latina?

Na última década houve uma mudança positiva, com o crescimento da atenção sobre a importância. Em alguns países você consegue financiar programas de qualidade, como a Film Comission Chile, que promove um número de obras anualmente nesse país. A Alianza Latino Americana (ALA) é uma ideia excelente, em que produtores e mídia de todo o continente podem trocar programas de qualidade e fortalecer uma rede. E a partir de organizações assim é possível promover workshops, treinamento contínuo e em alguns casos há financiamento estável, mesmo que pequeno. Além disso, há eventos organizados, onde as pessoas se encontram, debatem e criam. Só que o próximo passo é crucial. Porque não basta criar programas, mas dar visibilidade. Isso significa ter grandes canais exibindo bons produtos, caso do Pakapaka na Argentina. Espero ver canais como a rede Globo oferecendo conteúdo de qualidade e não apenas programas com vocação marqueteira.

Qual a importância de um evento como o Comkids e o Prix Jeunesse Iberoamericano para o desenvolvimento de mídia infantil no mundo e na região?

A cooperação. Quando trabalhamos juntos é importante. Se isso existe, fica mais fácil mostrar exemplos de bons programas. Além disso, filmes são muito importantes. A TV tem que trabalhar com festivais de cinema também. Com filmes você pode fazer algo poderoso e frequentemente as historias de ficção conseguem correr o mundo. Se forem curtas, há a possibilidade de ficarem disponíveis online e atingir um público imenso. No nosso canal no Youtube os vídeos publicados chegam a três milhões de visualizações, sem qualquer propaganda. Isso significa que há milhões de pessoas no mundo que o assistiram espontaneamente. Se houvesse um trabalho de divulgação, esse número poderia ser multiplicado. Então é aí que entra essa cooperação internacional. Eventos como o Comkids e o Prix Jeunesse desempenham um papel importante ao estimular uma troca de conhecimento muito vantajosa para todos os envolvidos.