Colunista

Cielo Salviolo

Por: Cielo Salviolo

A história do Pakapaka – o canal infantil do Ministério da Educação da Argentina – é uma história de busca, de perguntas, de criação coletiva, de emoções, de sensibilidade e convergência de olhares comprometidos com a infância e entusiasmados pela convicção de que a Argentina poderia ter seu primeiro canal público dedicado à infância.

Esta construção envolveu diferentes atores, estabeleceu um diálogo entre diferentes áreas (a educação, a filosofia, a cultura, entre outras) e demandou um profundo trabalho de conhecimento e reconhecimento de nossas infâncias. Conversas, debates, oficinas e mesas de trabalho foram alguns dos recursos usados no caminho de preparação, que ainda segue hoje.

Neste processo, a relação entre infâncias e pensamentos foi um dos eixos fundamentais para conhecer um pouco mais quem são os meninos e meninas, como veem o mundo, que perguntas fazem, como problematizam os temas, que sentido dão para o que fazem, dizem e pensam, como refletem frente a determinados temas ou coisas e, em definitivo, como olham o mundo.

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Acreditamos que sabemos muito sobre os meninos e as meninas e, às vezes, a pergunta de uma criança nos surpreende. Existe uma quantidade enorme de saberes sobre as crianças e sobre a infância, estes que supõem que, quase tudo, podemos antecipar e que há muito pouco espaço para a surpresa. Porém, pensar com as crianças, pensar a infancia, permitir-se pensar pelas crianças e pela a infância, implica em esvaziar-se, desprender-se do que acredita saber sobre os meninos e as meninas.

Implica reconhecer a infância como um enigma, mas também como um desafio. No caso do Pakapaka, o inestimável apoio de pessoas como Walter Kohan e Arianne Hecker  – que vêm trabalhando neste campo de filosofia com crianças na Argentina e no Brasil – nos convidou a descobrir pensamentos das crianças por trás de perguntas como: por que existe gente pobre?; o que acontece quando alguém morre?; quem criou o mundo?; o que são os sonhos?; por que as pessoas casam?; o que significa ser livre?

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Ser livre é nem mandar, nem ser mandado, é ser dono do meu tempo”, foi a conclusão de umas das crianças – entre 6 e 8 anos, participantes de uma oficina em El Bolsón (cidade Argentina na região da Patagônia) – frente a uma pregunta sobre liberdade¹. Às vezes os adultos não podem chegar a esta conclusão com tanta clareza.

Estas oficinas, estes espaços de discussão, levaram a própria equipe a questionar se a televisão pode ser um espaço que convide as crianças a filosofar; como seria este espaço, como poderíamos construí-lo com as crianças, em que condições. Neste processo, continuamos andando, mas com a convicção de que, nós que fazemos televisão para a infância, podemos sempre mobilizar o pensamento. Para seguir dialogando, para seguir aprendendo com as crianças.

¹Extraído de “Tiempos y cuerpos en el filosofar” de Arianne Hecker y María Silvia Rebagliatti. Instituto de Formación Docente Continua El Bolsón – Instituto de Formación Docente Continua de San Carlos de Bariloche

fotos: Fernando Minnicelli do Pakapaka

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Cielo Salviolo
Cielo Salviolo

Cielo atua em comunicação e produção de conteúdos audiovisuais para a infância. Fundadora do Pakapaka, hoje é consultora de conteúdos do canal. Dirige o Laboratório de Televisão Infantil para a América Latina. Professora de produção e realização de cinema e TV infantil na UBA, integra o Consejo Asesor de la Comunicación Audiovisual y la Infancia da Argentina.