Colunista

Beth Carmona

Por: Beth Carmona

* Artigo publicado originalmente na revista SescTV, n. 106, janeiro de 2016.

Os debates sobre diversidade têm ganhado espaço diante de tantos acontecimentos. A atenção para nossa natureza com tantas tonalidades se torna cada dia mais urgente. Diante do aparecimento de discursos e práticas que excluem o diverso e criam normatizações, a produção audiovisual de qualidade dedicada ao público infantojuvenil tem o desafio de criar interlocuções e representações das crianças e jovens.

Como podemos nos aproximar e dialogar com eles como sujeitos de sua vida, com ideias e opiniões? Essa é uma questão urgente, colocada na sociedade como um todo. Na América Latina isso se faz presente com força, visto que temos um enfraquecimento histórico de incentivo de uma produção de regional para esse público. Por décadas, nossas crianças vêm sendo acostumadas a consumir programas e séries “enlatadas”, produzidas em outros contextos o que pode criar representações da fantasia de um único mundo e em um único modo de ser criança ou jovem. A mídia que a maioria das crianças tem acesso costuma ser dominada por repetições de modelos, muitas vezes carregados de preconceitos e estereótipos (até sobre o que é o diferente). Nossas crianças encontram pouca representação nas telas. Crescem sem acesso a conteúdos que poderiam apoiá-los na compreensão de si mesmos e do mundo em que vivem.

Dale que ... - La siesta en Cerrillos

“Dale que?… “, Argentina, 2013, dir. Gabriel Stagnaro, Boca Bogagna / Pakapaka, programa vencedor da categoria até seis anos não ficção do Festival comKids – Prix Jeunesse Iberoamericano 2015.

Há muitas pesquisas de recepção que apontam o quanto as representações estandardizadas podem influenciar comportamentos ou criar frustrações. Hoje a indústria esta sendo questionada por apresentar padrões onde as meninas sonham em ser bem-sucedidas na vida e no amor, além de serem loiras, magras e belas. Durante muitos anos, apenas personagens masculinos eram heróis, corajosos, destemidos e inteligentes. Meninos e meninas precisam ser emancipados dessas representações repetitivas. A vida e as histórias infantis podem ter personagens menos rasos. Sejam reais ou de ficção, as histórias tem um papel fundamental nesse aprendizado e emancipação.
Como criar interlocuções e dar visibilidade à variedade que existe nas infâncias e juventudes? Como fazer isso sob a perspectiva das crianças e jovens? É importante que produtores e criativos pensem seus projetos verificando se não estão reproduzindo preconceitos e modelos prévios. As diferenças estão sendo tratadas com naturalidade? A diversidade está sendo refletida como um potencial de invenção de histórias e personagens? Será que essas narrativas estão proporcionando uma real identificação, e não o incômodo nas crianças e jovens de querer ser o que não se é?

Com o universo das múltiplas telas, as novas gerações têm construído outros processos culturais e de comunicação. A escuta e a observação dessas novas expressões são essenciais para conectar-se a elas. O diálogo precisa ser reinventado, com todo seu poder criativo, sensível a uma cultura de alteridade.
Será que estamos perto das crianças, numa atitude de escuta e de aproximação? Com toda a tecnologia disponível, observar os conteúdos e os discursos produzidos pelas crianças, por meio de fotos, vídeos e redes sociais, muitos deles com canais de youtube é escutar e conhecer essas novas gerações que estão se organizando de outras formas, muitos deles sujeitos influenciadores de outras tantas crianças e jovens. A nova organização cultural demanda diálogo e escuta, que precisa ser constantemente aberto com toda sua força criativa.
O cenário atual da produção e da distribuição de conteúdos abre uma discussão sobre novos formatos e a inserção de cores e paisagens locais. Além da qualidade, a produção tem a ver com o espaço compartilhado: comentar sobre o que se vê e a produção de sentidos em relação ao que se vê. Como construir esses sentidos compartilhados de cultura, de identidade, de memória? Como ousar, criar e potencializar uma interpretação infantil que garanta identificação; que as crianças possam se ver e reconhecer nas telas.
Novos autores e produtores estão surgindo. Com todo seu frescor, estão criando outras interlocuções com as infâncias e juventudes, reforçando a importância da cultura da infância e da cultura para a infância em todas as manifestações artísticas e culturais. A América Latina, com países de múltiplas culturas, tem essa força e característica, e vem mostrando novos modos de dialogar e olhar as crianças e jovens .
Nós, produtores e criadores do universo infantojuvenil, buscamos alimentar e povoar o imaginário infantil com boas histórias, potentes, criativas, com personagens fortes. Acreditamos que podemos ampliar os repertórios das crianças e jovens interagindo com a imensa diversidade que há no mundo. Acreditamos que, assim, podemos contribuir e inspirar, desde cedo, pessoas melhores.

Imagem do destaque: Um ano novo danado de bom, Brasil, 2014, João Batista Melo, D2R Studios, conteúdo finalista da categoria sete a onze anos ficção do Festival comKids – Prix Jeunesse Iberoamericano 2015.

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Direção geral e editorial do comKids.