Colunista

Gabriela Romeu

Por: Gabriela Romeu

Qual a concepção de infância que traz um produto cultural infantil? Como pensar a criança que vai fruir a obra? Será que o público infantil vai entender e acompanhar a história? Quem não se enche de perguntas ao criar um livro, um filme, uma música ou uma ilustração para crianças?

Numa entrevista com Regina Bertola, diretora do grupo mineiro Ponto de Partida, lá de Barbacena, ela deu uma senha, já no final da conversa. É que prosa de mineiro tem geralmente um jeito de papo ao pé do fogão e é na hora do cafezinho que vêm as melhores histórias.

Mas antes vou contar quem é a Regina e qual é o trabalho ela que faz. Ela dirige o grupo Ponto de Partida, criado há mais de três décadas. Há bem uns 15 anos, o Ponto de Partida encontrou os meninos de Araçuaí num trabalho em parceria com o CPCD, do educador Tião Rocha. Criaram obras como “Roda que Rola” (1998), “Ser Minas Tão Gerais”(2004) e “Pra Nhá Terra” (2007).

Agora, lançam juntos “Presente de Vô”, uma coleção que vem embalada pela lembrança de nossos ancestrais. É um trabalho de fôlego: quatro CDs, em que histórias de personagens que lembram a escrita de Mia Couto costuram um repertório de 44 canções.

Em sua prosa suave, Regina conta que disse pros meninos, os de Araçuaí: “Tem uns avós aí que vocês precisam conhecer…”. Juntos, foram investigar a herança familiar do grupo, pelo Vale do Jequitinhonha, para ouvir as sonoridades dos seus antepassados. Também remexeram nos discos “antigos”. E foram atrás das canções de nossas origens indígenas, europeias e africanas.

Desse baú da memória, saíram cirandas guaranis que se misturam com a música “Trem de Ferro”, de Tom Jobim; batuques dos velhos do Jequitinhonha mescladas com canções originais do Ponto de Partida, Lamartine Babo, em “Voltei a Cantar”, e canções de ninar africanas, entre outras misturas. Boa parte das canções ganharam arranjos sofisticados do grupo instrumental Pau Brasil.

Essas canções são costuradas pela linha da lembrança, por uma galeria de personagens que flutuam na nossa memória ancestral. Nessa galeria, estão o vô Cambeva, que tem uma oficina de consertar lembranças, Zalém e Calunga, que vivem de catalogar lembranças, Temporina, que está atrás de suas lembranças de infância. Habitam nossa memória afetiva.

Regina enfatiza que na era digital, com a profusão de imagens, esse trabalho convida a criança a parar e escutar. E brinca que a coleção vem com um kit de ferramentas de imaginar e com dois bons “aplicativos” (o ouvido e o coração).

A coleção “Presente de Vô” sinaliza “os muitos Brasis que nós somos”. “Com esse repertório, a ideia é mostrar para os meninos como a gente é diverso e rico e como isso nos faz melhores e maiores. Quem não sabe quem é não sabe para onde vai.”

Presente do avô - Foto: Guto Muniz

Presente de vô – Foto: Guto Muniz

Além da coleção de quatro CDs, a pesquisa virou o espetáculo musical “Presente de Vô”, que reúne um elenco de 50 pessoas (crianças, jovens e adultos) no palco. As roupas dos avós do grupo saíram do fundo do baú e foram parar no figurino do espetáculo. Faz de conta toma o lugar de grandes efeitos e maquinaria em cena.

Ouvi várias vezes os quatro CDs. Já ando cantarolando com Cambeva e sua neta danada Deolinda. Vivo torcendo para que Temporina encontre suas lembranças de infância e sonho em conhecer as Sonhambulantes, umas velhinhas que lembram as tias das minhas tias. “Presente de Vô” é bom feito colo de vó.

Ah, já ia me esquecendo da hora do cafezinho desse texto – ou da senha dada pela Regina na conversa que tivemos por telefone. Com um delicioso sotaque mineiro, ela disse que, ao criar uma obra, ela se refugia num país secreto chamado infância e ali encontra respostas para todas suas inquietações no processo criativo. “É o país secreto onde moram os meninos”, finaliza, puxando da memória Carlos Drummond de Andrade.

Só mais um cafezinho: sexta (8/11), às 21h, e sábado (9/11), às 18h, tem o espetáculo musical “Presente de Vô” no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo.

Para mais informações, visite o site do grupo.

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Gabriela Romeu
Gabriela Romeu

Gabriela Romeu é jornalista e documentarista. É uma das idealizadoras do projeto Infâncias (www.projetoinfancias.com.br), que está documentando a vida de crianças em diferentes lugares do país. Neste espaço, são publicados registros e vivências do projeto, além de outras reflexões sobre as infâncias.