Colunista

Vanessa Fort

Por: Vanessa Fort

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Com uma rica mistura de lindos concepts de arte e uma profundidade narrativa que se apropria da infância e do olhar infantil, o longa metragem de animação “O menino e o mundo” do Alê Abreu (Garoto Cósmico, Espantalho) está encantando platéias por onde passa. Com lindas interpretações de referências das artes visuais, do cinema e de diversas outras linguagens, encontra um espaço singular na experiência de cinema para crianças e para crianças de qualquer idade.

Com a partida do seu pai, o menino começa uma jornada em sua busca.  De intensa delicadeza, as descobertas do mundo são sempre filtradas pela interpretação infantil, em navios-bichos e piscinas de algodão. Questões filosóficas, sociais e culturais são pinceladas com a leveza dos olhos infantis.  Em caminhos fantásticos, ele também parte para sua jornada de crescimento, munido por uma permanente esperança.

A produção já ganhou vários prêmios, entre eles o Prêmio de longa-metragem em animação do importante Festival Internacional de Animação de Ottawa, com menção especial do Júri, e de Melhor Filme Brasileiro no Prêmio da Juventude da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Com estreia prevista para janeiro, a animação tem distribuição internacional da Espaço filmes para cinema, e da Elo Company para TVs brasileiras e internacionais. O filme foi produzido em 4 anos, contando com o patrocínio da Petrobrás, do BNDES e da Sabesp por meio do FSA e com apoio da Secretaria de Estado da Cultura, Cinema Paulista e ProAC. O plano de divulgação conta com várias estratégias, entre elas o lançamento do clipe da música “Aos olhos de uma criança”, do Emicida.

Tive o prazer de assistir a primeira sessão do filme em SP, na Mostra Internacional de Cinema e, depois disso, conversar por email com o Alê. Mandei pra eles todas as minhas curiosidades de produtora. Abaixo, compartilho esta prosa na íntegra com vocês.

comKids: O filme é muito profundo, tem muitas camadas e elementos de narrativa, além da experiência estética que ele proporciona. Conte-nos um pouquinho sobre as suas referências, compartilhe com a gente quais foram estas inspirações.

Alê: Nos quatro anos de produção tivemos algumas fases, com referências por vezes bem distintas. O filme nasceu a partir do universo musical que eu estava pesquisando para o Canto Latino (um filme que não saiu do roteiro, mas que transformou-se em o Menino e o Mundo), Silvio Rodriguez, Victor Jara e a Violeta Parra que também foi referência visual, uma vez que ela também era pintora. Ainda no campo da música, o disco Ágaetis Byrjur do grupo islandês Sigur Rós.

Alê: Penso que o filme saiu de dentro deste disco. Não entendo islandês, mas eu ouvia as músicas e anotava sensações que se transformavam em passagens da história. Depois vieram as referências musicais mais diretas para a construção do filme: Naná Vasconcelos, Barbatuques… não foi à toa que os convidei para participar da trilha sonora depois. Nas referências visuais eu poderia citar os abstratos Klee, Miró, Tápies e mesmo os brasileiros que foram influenciados por eles: Burle Marx, Volpi. Quanto às referências do cinema, eu citaria Tarkovsky (seu jeito de entender o fazer cinema) e no campo da animação Myazaki. Certamente me esqueci de um monte de gente e descobrirei outras não tão evidentes, na medida em que me distanciar do filme.

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comKids: Como foi a produção do roteiro e a composição da narrativa? Conte-nos um pouquinho sobre este processo e o quanto ele se mistura com a composição dos concepts, com a música, a opção pela linguagem universal (sem palavras) e a invenção da língua, etc.

Alê: Às vezes tenho a sensação de que são os filmes que nos encontram e não o contrário. Em 2006, um edital do PAC nos direcionou a trabalhar no desenvolvimento do projeto de Canto Latino, um anima-doc abordando diversos períodos da conturbada história do continente sob a ótica das músicas de protesto dos anos 70. O projeto, iniciado no período final da produção de Garoto Cósmico me parecia sua continuação natural e me levou a uma apaixonada pesquisa sobre o tema. Além dos livros e das músicas, mochila nas costas e muitos cadernos de anotações. Em 2007 terminamos o projeto, porém nunca mais voltei a pensar sobre o filme. Na verdade, e reafirmando a ideia de que o documentário tende a ficção e vice-versa, Canto Latino já havia se transformado.

O menino saltou nos cadernos

Alê: O motivo (ou estopim) desta metamorfose foi o surgimento em meus cadernos de rascunhos, entre anotações e pensamentos de Canto Latino, da figura de um menino, que na mesma hora chamei de Cuca. O desenho se destacava dos demais pela simplificação extrema dos traços, e parecia acenar para mim. Mais do que o próprio personagem, o desejo daquela ideia de desenho, gestual e muito simples, foi crescendo e sobrepondo-se ao projeto de Canto Latino. Desta forma, Cuca ganhava um contexto, uma situação já bem construída como pano de fundo, seu Jardim. Restava encontrar naquele universo a sua história.

Composição da narrativa

Alê: Escrevi um primeiro argumento muito livremente, costurando ideias soltas: Cuca levado pelo vento, o encontro do menino com um velho, a partida do pai, mistério numa fábrica abandonada, etc. Mas sempre incorporadas ao pano de fundo, que era a situação apresentada em Canto Latino, e buscando encontrar ali uma linha que os unisse numa história. Quanto ao roteiro, não houve bem esta etapa, pelo menos da forma que estamos acostumados a entende-la. Com o argumento em mãos fui construindo o filme diretamente na ilha de edição, já em forma de audiovisual, criando um novo animatic. Processo que levou pouco mais de um ano de trabalho.  Fazia anotações, esboços em um caderno de rascunho e depois transformava estas ideias em pequenos trechos de história, que eram incorporados ao bloco do filme. Ao mesmo tempo experimentava sons e trechos de músicas como referência e já brincava com a própria montagem. Penso que, talvez por isso, o filme tenha se resolvido praticamente sem diálogos.

No decorrer da produção fomos descobrindo muito mais do filme que estamos construindo, nos desenhos e misturas de técnicas dos cenários, no ritmo de um personagem, nos movimentos de câmera. Sua linguagem se impõe e nos coloca em movimento. Minha tarefa como diretor é estar atento as vozes do filme e imerso nesta fabulação, ser guiado por ele.

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comKids: Você trabalhou com uma equipe muito bacana. Conte-nos um pouquinho como foi o processo de composição da equipe e de todas as colaborações.

Alê: A composição da equipe de arte e animação foi um processo bem orgânico. Iniciei a construção da narrativa com a ajuda da Priscilla Kellen, assistente de direção e coordenadora de arte do filme. A partir do animatic, ainda na etapa de pré-produção, desenvolvemos um “planejamento artístico”, onde pensamos cenários e personagens secundários e assim fomos descobrindo o visual do filme; muita textura, lápis, giz, tinta, colagens. A Midori Sato, que havia feito assistência de animação em Garoto Cósmico, juntou-se à Priscilla na assistência de direção neste processo, e logo percebemos que precisaríamos de profissionais com domínio de variadas técnicas artísticas. Foi feita uma triagem de ilustradores iniciantes e estudantes de artes, design e animação. Ao longo desses quatro anos colaboraram com o filme cerca de 30 desenhistas. Quanto ao time de músicos, um puxou o outro. Já tinha uma parceria muito feliz com os diretores musicais Gustavo Kurlat e Ruben Feffer desde Garoto Cósmico, então apresentei a eles o animatic e minhas ideias para a música e o som, que neste filme é praticamente um personagem. O GEM (Grupo Experimental de Música) entrou no time para criar elementos sonoros não literais, a partir das sensações do Menino. A participação do Naná Vasconcelos foi sempre pensada como uma das “vozes” do personagem. Por fim,  Emicida, que compôs um rap depois de ter assistido ao primeiro corte do filme.

comKids: Da sua trajetória como artista, de colaborador de diversos projetos, criador e diretor de televisão a processos mais artísticos do cinema, como você percebe a sua jornada?

Alê: Sempre fiz muitas coisas diferentes ao mesmo tempo: pintura, desenho, ilustração, animação, cinema. E sempre foi algo difícil pra mim, pois sentia que cada um apontava para um caminho diferente. Com o tempo, e não com pouco suor, pintura, desenho, cinema e ilustração foram se misturando, se equilibrando, vejo isso principalmente no resultado de  O Menino e o Mundo. Acho que esta confluência tem sido o meu caminho e penso que há ainda um vasto campo à frente a percorrer.

O menino e o mundo
Direção, Roteiro e montagem: Alê Abreu
Produção: Filmes de papel
site: www.omeninoeomundo.blogspot.com.br
Classificação livre

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Vanessa Fort
Vanessa Fort

Roteirista e produtora