Colunista

Beth Carmona

Por: Beth Carmona

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Há algumas semanas, na abertura da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, uma sessão de cinema muito especial mostrou na prática a força e o poder do audiovisual quando realizado dentro de seus propósitos mais nobres e verdadeiros. Num curta de menos de 15 minutos, pudemos perceber a força de uma cultura e a identidade e o orgulho de uma comunidade, ao se ver e reconhecer na tela, registrada com vida, expressão e criatividade.

O curta , “O Sumiço da Coroa”, foi exibido no Teatro Pedro Ivo. Na plateia, além de outros convidados, estavam presentes vários moradores do bairro Lagoa da Conceição, também atores e protagonistas da divertida comedia infantil. É incrível, mas tudo estava lá, numa celebração de muita simplicidade e de uma intensidade impactante.

A Ilha de Floripa, com toda sua beleza e natureza de mais de 40 praias, conta com aproximadamente 400 mil habitantes. Sendo assim, conserva muitas características de uma cidade ainda pequena, apesar de ser capital de Santa Catarina. Lá mesmo, o filme foi realizado em tempo recorde e com baixíssimo orçamento. Foi possível graças à iniciativa de um grupo que conhece e sabe da importância do audiovisual na formação e na vida das crianças.Com direção de Marcos Martins, produção executiva de Luiza Lins e os trabalhos de Chico Faganello, a história foi escrita a muitas mãos. O roteiro final contou com as ideias que surgiram a partir de oficinas realizadas com as crianças da comunidade da Lagoa. As crianças protagonistas — que pela primeira vez viveram a experiência de atores — são Mariana Koheller e Pedro Rushell. No grande elenco, vemos estampadas na tela imagens de todos os moradores do bairro, encenando a história como se fosse uma grande brincadeira, com direito a participações de peso no decorrer do enredo.

A história se passa durante a tradicional Festa do Divino, considerada patrimônio histórico, artístico e cultural de Santa Catarina, trazida por imigrantes açorianos no século 18. Sua base se encontra em Portugal do século 14, com uma celebração estabelecida pela rainha Dona Isabel de Aragão, por ocasião da construção da igreja do Espírito Santo. Na Festa do Divino a família imperial e sua corte estão representadas. Todos se vestem como reis, rainhas e princesas, com direito a ornamentos, mantos, cetros e coroas.

No filme, uma singela animação pontua a trama, que começa quando a coroa imperial é roubada da Igreja, logo após o grande cortejo. Com direito a missa e procissão, vemos a Igrejinha colonial, o padre, as carolas, as vizinhas, as crianças do bairro, os vilões, o padeiro, o jornaleiro, a professora, os cachorros e o açougueiro. Todos estão representando seus papeis, numa comédia divertida com direito a muita correria e perseguição. Segundo as crianças que participaram da confecção do roteiro, para um filme ser bom, tem que ter muita correria, confusão e cenas de perseguição.

A Lagoa da Conceição, sua comunidade e a festa folclórica do Divino estão assim devidamente documentadas em “O Sumiço da Coroa”, mas num tom ficcional, de muito humor e fantasia, embora tudo ali seja bem verdadeiro. E o melhor de tudo foi participar da sessão de cinema, na qual pela primeira vez todos os autores, atores e moradores do bairro se reconheceram na tela grande, num misto de orgulho, satisfação e emoção. Que prazer!

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Direção geral e editorial do comKids.