Colunista

Beth Carmona

Por: Beth Carmona

O privilégio de poder dedicar cinco dias inteiros – quase uma imersão – para assistir, comentar, debater conteúdos criados e produzidos para crianças em diferentes partes do mundo e que trazem impressas diferentes culturas e modos de ver e sentir acontece nos anos pares, na Alemanha, durante o Festival Prix Jeunesse Internacional. Nos anos ímpares, a oportunidade está mais perto de nós latinos, são as ocasiões nas quais realizamos o comKids – Prix Jeunesse Iberoamericano que, em 2017, acontece no Sesc Consolação e no Goethe-Institut (em São Paulo). É nesses momentos de troca e inspiração com profissionais dedicados a produzir para crianças que costumamos questionar nossas práticas, rever nossos pensamentos e ter novos insights para projetos futuros.

Durante a experiência do festival alemão, em 2016, as histórias vindas especialmente do Japão e da Noruega surpreenderam. Outras produções, vindas da Austrália, Argentina, Chile, Irã e Republica Tcheca também contribuíram na busca de formatos criativos e abordagens interessantes de temas caros a esse público. No calor das discussões, muitos programas exibidos viraram centro de conversa nos corredores e “biergartens” de Munique.

Não é de hoje que as produções japonesas para crianças apresentam elementos inovadores, demonstrando uma observação detalhada do universo infantil e um entendimento singular sobre formas e modos de comunicação com a infância. Além dos cultuados animes, algumas séries de animação japonesas e as incríveis produções dos Estúdios Ghibli têm mostrado sensibilidade no trato infantil e conexões fortes com as formas e a natureza, sob um senso desenvolvido de estética – talvez pelas características culturais, pela ancestralidade da civilização, raízes e filosofia dos criadores japoneses.

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“Folk Tale Courtroom“ NHK Foto série Lobo Mau e 3 Porquinhos.

 

Aqui quero destacar as produções infantis da NHK (TV pública), que além das características acima mencionadas, trazem a preocupação com a escuta e observação infantil e imprimem em seu trabalho um sentido apurado de ética e respeito à linguagem das crianças.

É o que podemos perceber em um episódio da série “Folk Tale Courtroom”, ganhador do prêmio do júri juvenil do Festival Prix Jeunesse Internacional 2016, na categoria de 11 a 15 anos, ficção. Trata-se de The Trial of the Three Little Pigs (“O Julgamento dos Três Porquinhos”). Numa sala de tribunal, os três porquinhos vão a julgamento, pois são acusados de matar o Lobo Mau. Durante a sessão, testemunhas de acusação e defesa defendem seus pontos de vista perante um júri de humanos que ouvem atentamente mais uma vez a conhecida e antiga fabula, agora do ponto de vista da mãe do lobo e de outros personagens que trazem a sua versão da história, desafiando o maniqueísmo do certo e do errado.

Utilizando atores e bonecos, numa composição da cabeça, rosto e membros, com um resultado estranho nesta produção em live action, o conteúdo impressiona. Envolve e nos faz pensar, desde o primeiro momento, assim que mergulhamos no debate sobre essa fábula, já contada de tantos modos, mas nunca segundo esse formato.

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Foto: Mimicries, NHK.

 

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Foto: Mimicries, NHK.

 

Ainda da NHK, a série pré-escolar Mimicries, também premiada no Festival PJ 2016 (além do Japan Prize 2014), brinca com o mimetismo e com a natureza por meio de uma competência estética admirável e alimenta, desde cedo, o pensamento cientifico nos pequenos. O programa fala sobre as diferenças e as similaridades dos mundos animal e vegetal, em segmentos dinâmicos e coloridos. Ao focar num grupo de crianças em excursão num parque natural, todo conteúdo é conduzido de forma a reforçar a curiosidade natural das crianças sobre a natureza, estimulando o espírito de observação e a comparação de formas, convidando a audiência, de forma simples e direta, a buscar suas próprias conclusões e a fazer mais e mais perguntas. Misto de imagens reais, animação e desenho gráfico, Mimicries é visualmente forte, surpreende em termos de som e musica e é provocador. A série é acompanhada por uma página on-line e apps que propõem às crianças a prática de fotografar seres vivos, observar e classificar a natureza.

O Prix Jeunesse também trouxe novidades em novos formatos. Convido vocês a refletir sobre eles no próximo artigo. Aguarde a próxima postagem no site comKids.

Imagem do destaque: Prix Jeunesse Internacional 2016, divulgação.

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Beth Carmona
Beth Carmona

Direção geral e editorial do comKids.