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Por: comKids (Redator)

Artigo publicado originalmente em Promenino Fundação Telefônica

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Crédito da foto: Martha Cooper, reprodução do blog Câmara Democrática

Por Carolina Pezzoni, do Promenino, com Cidade Escola Aprendiz

“Quando King morreu, eu sabia que iria me tornar radical […] eu poderia pegar uma arma ou pegar uma caneta e lançar algumas bombas. Eu decidi pegar uma caneta”, manifestou Abiodun Oyewole, membro do grupo The Last Poets, um dos precursores do hip hop no bairro novaiorquino do Harlem. A referência, pinçada pela autora do livro Teatro Hip-Hop (Editora Perspectiva), da atriz-MC Roberta Estrela D’Alva, ilumina a essência deste movimento, que, muito além de um gênero musical, é a expressão de uma cultura.

Conforme ela relata, em um cenário de violência e abandono, que era o sul do Bronx, em Nova York, no fim dos anos 1960, um ambiente desprovido de condições mínimas de vida: escolas, saneamento básico, calefação, e repleta de drogas, violência e brigas de gangues, aconteceu uma guinada. “Pessoas que até então conviviam com a morte muito próxima começaram a ver que aquele era um lugar feito para matar, não para viver. E perceberam que estavam se matando entre si.”

Uma potência transformadora emergiu nas crianças e nos adolescentes – segundo a autora, os próprios integrantes das gangues, que eram tão jovens quanto 12, 13 ou 14 anos – “como uma planta que, para sair do solo, precisa manifestar um impulso violento de vida”, descreveu Roberta, em entrevista ao Promenino. E essa energia passou a ser canalizada para batalhar, não com armas, mas com arte, nas ruas.

“Quando tudo estava sendo feito para a sua aniquilação, eles não apenas transcederam isso, como criaram uma nova forma artística, com MCs, DJs, grafiteiros, b-boys, que permitiu a sua sobrevivência e fez com que outras pessoas na mesma situação, no mundo inteiro, se utilizassem dela para ter voz”, dimensiona a atriz-MC, que também trabalha como diretora, pesquisadora, curadora e apresentadora de competições de poesia falada (poetry slam).

MC Griot

Apesar da atualidade dos MCs (mestres de cerimônia) oriundos do universo urbano da cultura hip-hop, a sua função não é contemporânea – na realidade, chega a ser ancestral, na figura dos griots. Muito respeitados em algumas culturas africanas, eles são os responsáveis por guardar e transmitir a memória de seus povos, expressando-a por meio da linguagem oral. Saiba mais sobre eles neste link.

Ao ouvir, se dá voz

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Roberta Estrela D’Alva, divulgação

Para Roberta, que integra o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos (a primeira companhia de teatro hip-hop do Brasil) há 15 anos, desde a sua fundação, esta é mais uma possibilidade de ser porta-voz da sua história. “A capacidade mais viva do artista é a da autorrepresentação, e a sua história é a história do mundo onde se vive. A minha carreira musical, no poetry slam, ao atuar, escrever, participar de mesas, tudo o que faço está relacionado ao meio em que habito. Este é o motivo do meu trabalho. É a urgência de falar sobre o que precisa ser falado que faz as obras nascerem, sejam elas escritas, dançadas, cantadas ou interpretadas”, reflete.

Com este mesmo pensamento, a atriz encara o papel social da educação. Ao relatar a sua participação no projeto Espaço Arte, da Secretaria do Estado da Cultura de São Paulo, no qual ministrava aulas de dança para adolescentes em liberdade assistida, ela conta que era antes uma oportunidade de compartilhar ideias do que uma aula pronta: “Eu procurava perceber o que seria útil naquela situação, o que eles queriam saber entre as coisas que eu poderia oferecer”.

Os encontros e os diálogos com os alunos acabaram dando materialidade à personagem mais marcante da sua carreira: Segismundo, do espetáculo “Acordei que sonhava”, “um misto de MC, rapper, menino, homem, poeta, bandido e heroi que dialeticamente trazia a força e a fragilidade de quem esteve relegado ao esquecimento e ao abandono, e ainda assim inventou condições de sobrevivência”.

E333 PR-6 (Scapa) TeatroHipHop.inddPreciso entender

Preciso descobrir

Eu só nasci

Foi esse o meu delito,

Ou algo a mais eu cometi?

 (Trecho do texto de Claudia Schapira, para a primeira cena de Segismundo, em Acordei que sonhava | Reprodução do livro Teatro Hip-Hop)

A mensagem de Segismundo, segundo sua intérprete, é que a questão das crianças e dos adolescentes diz respeito a todos nós. “Quando eu ia às reuniões do Estado, me incomodava ouvir ‘os meninos, os meninos’, como se fossem ‘eles’, e não ‘nós’. Eles não são ‘eles’, eles somos nós. ‘Os meninos’ têm nomes, realidades diferentes, famílias diferentes, perspectivas diferentes, desejos diferentes. Não são uma massa indistinta”, defende, “e isso deve ser levado em consideração”.

Este, no entanto, não é um problema exclusivo dos adolescentes em medida socioeducativa ou da periferia, como observa Roberta. “A escola de maneira geral, no Brasil e em vários outros países, promove a homogeneização: todo mundo tem que ter a mesma letra, usar o mesmo uniforme, ser do mesmo jeito. A diferença não é encorajada e, pior ainda, é ridicularizada”, argumenta. “Justamente o que há de mais genuíno em cada ser humano passa a ser visto como um defeito, uma doença, um corpo estranho.”

A cultura hip-hop é um contraponto a esta forma de pensar. “Não tem como catalogar a dança de rua, cada um tem seu passo, nem o grafite ou o jeito de rimar. Em vez de criminalizar e escamotear a diversidade, ela é a própria essência. Quanto mais diverso o meu jeito de dançar, mais legal”, explica. “É por isso que o hip-hop é legal para a educação: ele conversa, pulsa com essa vida, com essa força subversiva, explosiva, que quer transgredir, que é a força jovem.” Isso é dar voz.

Maioridade penal

“Este é o sintoma não a doença. Não podemos discutir maioridade penal sem antes discutir a educação, o sistema de saúde, a alimentação dessas crianças… O país enfrentou dois processos muito graves e recentes, que são a escravidão e a ditadura militar. Por isso, precisamos pensar em uma política reparatória e não punitória. Essa juventude precisa de uma reparação que, se feita de maneira séria, talvez anule a necessidade de punição.” (Roberta Estrela D’Alva) – Leia outras matérias do Promenino sobre o tema acessando o link.

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O hip-hop pelas lentes da fotógrafa norte-americana, Martha Cooper.

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Blog DefGrip

Foto do destaque: Roberta Estrela D’Alva, por Leonardo Rogério Mussi