Colunista

Aldana Duhalde

Por: Aldana Duhalde

Hoje minha conversa é com Juan Pablo Zaramella (veja aqui outro papo entre nós), realizador de muitos talentos. Suas criações, “Viaje a Marte”, “Sexteens”, “Luminaris” e tantas outras tem sido reconhecidas nos mais importantes festivais e seus desenhos são amados por um público muito extenso, de todas as idades e no mundo inteiro. Sem exagero.

AD – “Viaje a Marte” é uma produção muito particular, sua, adorada por crianças e adolescentes. Mas você nunca a pensou especificamente para este público. O que você acha que descobriu fazendo essa obra? Como você continua nesse caminho?

Z – Embora “Viaje a Marte” (cujo protagonista é uma criança), e o projeto que tenho agora sejam universos que se aproximam muito do mundo infantil, sinceramente são ideias que simplesmente chegam. Não é que não me questione sobre o que posso fazer para agradar as crianças. Nunca pensei nesses termos. Penso em coisas que gostaria de fazer, que me interessam desenvolver e sigo em frente. Porém, talvez o contato com o mundo infantil surja porque o que estou fazendo hoje é uma extensão dessas atividades que eu fazia desde que era pequeno: desenhar, gravar vozes com meus amigos, fazer filmes em papel de carbono nos projetorezinhos Cine Graf. Tudo aquilo é o início de algo que continua até hoje. Esses jogos de infância se tornaram a vontade que tenho de fazer filmes. Eu acho que aí é que está a conexão.

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AD – E quem é “El hombre más chiquito del mundo” (“O homem menor do mundo”, trad. livre)?

Z – Eu não… (risos). É um personagem que mede apenas 15 cm. É o protagonista de um projeto de série em stop motion em que estou trabalhando agora. Vive no mundo e quer poder viver a vida como qualquer outro. Não vai dirigir um carro pequenininho e sim dirigir um carro grande, tem uma casa “normal”, vai fazer o que cotidianamente fazemos todos, mas lutando contra o problema de ser tão pequenininho. Os gags que a série propõe surgem deste contraste: um homenzinho no mundo real.

Foto pessoal (en su canal del facebook)

Foto pessoal de “El hombre más chiquito del mundo” (em sua página do facebook)

Foto personal

Foto pessoal de “El hombre más chiquito del mundo” (em sua página do Facebook).

AD – E você fez novamente! Não alcançar uma torneira, ver um adulto desde baixo como um gigante, não poder alcançar um brinquedo na estante… o homenzinho condensa a frustração literal com a qual convive uma criança pelo seu tamanho e a metáfora do homem adulto frente às dificuldades.

Z – Sim, totalmente. Esse é o ponto. Basicamente é um tema universal. Quem nunca se sentiu pequeno alguma vez diante de algum problema? Creio que é esse o gancho que a todos nos toca, de um ou de outro modo, em uma ou outra situação em que algo se torna grande demais para a gente.

AD – E com respeito às possibilidades econômicas de materializar os projetos: você é um nome que não precisa pedir para que te apoiem ou você é o homenzinho que ainda precisa convencer ao capital para que financie as suas ideias?
Z – É mais fácil agora que há alguns anos. Hoje bato em uma porta e eles me abrem pelo menos. Não tenho que estar esperando indefinidamente como quando comecei. Já tenho acesso a um montão de produtores – não é garantia de que me digam sim – mas pelo menos sabem quem eu sou, me escutam com vontade. Para os meus projetos mais pessoais, como os curtas, ainda prefiro ter certa independência e aceito a ajuda com algumas condições, sei perfeitamente qual é o limite até onde pretendo ceder.
“El hombre más chiquito del mundo” (“O homem menor do mundo”, trad. livre) é diferente. É uma série. Eu o planejo como um produto. Certamente trabalharei com uma equipe. Sou permeável com esse projeto. Vai se armando com o que vai surgindo, somando reações, estando atento ao que acontece e ao que posso fazer diante disso.

AD – E suponho que por seus 15 centímetros, além de dificuldades, deve haver vantagens…
Z – Sim, claro… é possível viajar dentro de um bolso ou em um envelope e se enviar a si mesmo a qualquer parte do mundo… São muitas as vantagens, o seu tamanho lhe permite entrar em lugares nos que ninguém entra. Não é necessário pedir permissão. Tem impunidade para muitas coisas…

Foto personal

Foto pessoal de “El hombre más chiquito del mundo” (em sua página do facebook)

Foto personal

Foto pessoal de “El hombre más chiquito del mundo” (em sua página do facebook)

AD – E aqui também surgem os desejos infantis de não ter que pedir licença… e com muito senso de humor…
Z – Passar desapercebido é muitas vezes uma grande virtude. O imprevisível e o absurdo me atraem. E eu sempre gostei do humor como maneira mais direta de se chegar ao público. Vai mais além do fato de o produto que você está fazendo seja ou não humorístico, o humor te permite ganhar o público de um modo muito direto. Se o público riu, você já ganhou a simpatia dele, você conquistou sua confiança e irão acreditar em você mais facilmente. Isso é o que parece que não pode faltar, o humor, mesmo que seja como condimento…
AD – E falando sobre condimentos, você se sente como argentino, latino-americano ou sem fronteiras?
Z – Me sinto mais sem fronteiras, mas eu acho importante que em alguns projetos se note claramente desde qual lugar geográfico as ideias vêm. O curta que estou realizando agora, por exemplo, tive possibilidades de gravá-lo em outros lugares, mas quero fazê-lo aqui. Falado em espanhol. Isso aconteceu com “Viaje a Marte”, foi uma decisão que os personagens falassem em argentino e que as paisagens fossem claramente argentinas. É o universo em que eu vivi toda a minha vida. É o que eu conheço. É de onde são os meus personagens. Não posso dirigir um personagem desses falando em inglês.

AD – E, em termos gerais, você acredita que existe hoje uma “produção latino-americana” com identidade própria?
Z – Na verdade, mais ou menos. Sim, para casos isolados. Tirando essas exceções, a sensação geral é que quando há muito profissionalismo, há pouca identidade e quando há identidade, os projetos são muito amadores. A indústria não está interessada no autenticamente regional e as grandes produções tendem a diluir-se em um modelo que está sendo proposto pela união europeia ou pelos EUA. Eu gostaria de ver a identidade como uma coisa mais estendida, para além dos lugares nos que as histórias transcorrem e de como falam os personagens. Na América Latina há uma identidade visual muito forte que ainda não vejo refletida em todo seu esplendor.

AD – Se você tivesse que descrever o momento de maior felicidade de seu trabalho…
Z – Um momento que me agrada muito é quando você está editando e vê que essa ideia que você tinha pensado começa a funcionar. E atenção, é possível assemelhar-se ou não à sua ideia original, mas você a vê funcionando, e vê que a história cresce, indo mais além do seu ponto de partida: você se dá conta que foi possível criar esse universo.
E depois, é fundamental o momento de experimentá-la com o público. Porque uma coisa é sentir que para você funciona, mas logo me pergunto: as pessoas vão ver o que eu estou vendo? E quando você vê que o público vê, que sente o que você queria transmitir em sua história, isso é algo muito satisfatório.

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Para saber mais sobre Zaramella e seus projetos em andamento, clique aqui.
Para se tornar amigo(a) do “El hombre más chiquito del mundo” (lá também é possível ver as suas incríveis aventuras): veja no Facebook.

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Aldana Duhalde
Aldana Duhalde

Formada em comunicação social, Aldana é jornalista, realizadora, docente e consultora independente de produções para crianças.