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Por: comKids (Redator)

Por Vanessa Fort e Daniel Leite

Flexível: aquilo que não se dobra facilmente, que não é rígido, que não se sujeita a normas estritas.Esse é o conceito por trás da iniciativa argentina Flexible Lab, que mescla arte e tecnologia para a formação de crianças. A ideia é a de transitar pela pluralidade de sentidos e pela capacidade de transformação, proporcionando espaços de criatividade em um laboratório multimídia que articula arte, tecnologia, educação e diversos processos . O conceito “flexível” do núcleo une o experimental e o lúdico, trazendo para as crianças a possibilidade de manipular engenhocas tecnológicas e construir suas próprias narrativas e animações. Sob a coordenação de Micaela Puig (diretora de arte e criativa) e de Gerardo Della Vecchia (licenciado em artes eletrônicas), as atividades funcionam em regime complementar às atividades escolares, muito embora alguns dos meninos e meninas que frequentam o lugar prefiram que o Flexible Lab à escola deles. A Mikaela foi pré júri do Festival comKids – Prix Jeunesse Iberoamericano 2015 e estará com a gente durante em agosto.

fotos: registro Flexible

Abaixo, uma entrevista com Micaela Puig, concedida ao portal comKids.

Conte um pouco sobre a construção do conceito das atividades do Flexible Lab, da sua experiência e das inspirações para o trabalho com crianças e adolescentes.

Flexible se apresenta como um espaço em constante mudança. Nada do que acontece ali tem o mesmo formato com o passar do tempo. A partir dessa substância é que se evoca a dinâmica de trabalho de laboratório, tanto pelo desenvolvimento de conteúdos gerados pela equipe de coordenadores, como pelo grupo de participantes que, ao adotar as propostas a partir de seus olhares pessoais, conseguem fazer com que os resultados sejam particulares e muito diferentes entre si.O desenvolvimento de conteúdos gerado para o laboratório anual parte da ideia de construir “objetos de pesquisa” tão interdisciplinares quanto possível para que o grupo que o recebe parta de um elemento comum que é o projeto ou módulo que será trabalhado, e por sua vez cada criança possa adotá-lo à sua subjetividade, gosto e interesse pessoal.A inspiração para o desenvolvimento dos conteúdos parte da necessidade de oferecer um trabalho que una as crianças às várias disciplinas artísticas que compõem a arte e seus processos específicos de forma a romper com a ideia de conhecimentos separados e estancados, proporcionando a possibilidade de repensar, inclusive, o que é uma disciplina artística e encorajando-nos a trabalhar com tudo aquilo que nos sugira uma forma interessante para criar e experimentar com elas sem estar sujeito às formas pré-estabelecidas do mundo da arte tradicional.

Seria maravilhoso saber como as atividades estão organizadas e sua relação com cada faixa etária.

As atividades estão diretamente relacionadas com a construção do projeto. Se ele tiver características complexas e, provavelmente, se colocar como uma extensa experiência que levará muito tempo, ele estará composto de várias fases de trabalho, que se irão cumprindo gradualmente. Por outro lado, se a experiência for mais delimitada, pode ser que seja desenvolvida em uma única fase de trabalho.Ou seja, que não é o mesmo que aproximá-los (por exemplo) de um trabalho de cinema de animação onde você deve passar pela tarefa de pensar o roteiro, fazer o cenário, figurino, aprender a usar o software para animar, aprender a animar, editar, fazer o desenho de som etc, que ter uma experiência eletrônica onde se pretende confeccionar um dispositivo sonoro ou mecânico e você só trabalha em função dessa instância.Quanto às idades, por um lado, a ideia é que todo ano ofereçamos às crianças diferentes experiências, pois há muitas que continuam no Lab. E é nossa responsabilidade gerar um crescimento pessoal e artístico em seus processos.Para a faixa etária de 5 a 12 anos, os conteúdos são desenhados, organizados e administrados pela coordenação, enquanto que para os adolescentes, o que fazemos é gerar um número de possíveis projetos, de modo que, após uma primeira reunião com eles, eles próprios possam escolher o que desejam aplicar durante o ano.

As atividades estão organizadas entre as artes visuais, as artes interativas e digitais. Faz muito tempo que os avanços conceituais, experimentais e tecnológicos das linguagens eletrônicas já passaram por mudanças: há uma ideia de mercado – e o quanto que a organização de algumas mídias estão submetidas a ele – assim como das experiências poéticas e estéticas. Como é o pensamento de vocês em relação a isto, e quais são as ideias e conceitos que fazem deste projeto algo tão bonito?

Há algum tempo, quando a Flexible chegou como uma proposta artístico-pedagógica, ela costumava ser mencionada pelo trabalho interessante de fazer com que as crianças saíssem do papel de “usuários de tecnologia”, já que parte da nossa ação se encontra em abrir os dispositivos tecnológicos e expor as crianças a responder a um mercado que teima em estabelecer a ideia de que os dispositivos tecnológicos só podem ser utilizados da forma e sob o sentido para a qual foram desenvolvidos, propondo a eles jackear a “utilidade” do mesmo e levá-lo para o campo da “experimentação” desse dispositivo, embora eu sinceramente ache que, para além deste conceito, a Flexible se propõe a algo ainda mais complexo que é fazer com que as crianças fujam do papel de “usuárias de ideias” e torná-las parte de uma cadeia de pensamentos, onde sejam elas e a partir delas que abordem conclusões sobre os processos, formas de trabalho e, finalmente, resultados. O que para o meu modo de pensar, é a única maneira de que comecem a entender o que significa criar uma linguagem artística pessoal.

fotos: registro Flexible

Seria interessante saber como é a ideia – e o desenvolvimento – da experiência artística compartilhada, vivida em grupo, que potencializa a inspiração coletiva.

Um dos aspectos mais importantes que envolve o trabalho que está sendo feito coletivamente na Flexible, além do que já sabemos sobre a importância de compartilhar, dividir tarefas e aprender a organizar isso em conjunto, tem a ver com o fato de que, ao trabalhar coletivamente, acabam sendo expostos à situação de ver como o outro colega trabalha, sua forma de pensar e resolver situações, que embora sendo um contemporâneo, a outra pessoa o faz de forma diferente, e isso faz com que muitas vezes se tome essa forma como parte do aprendizado pessoal desconstruindo o mito de que você só pode aprender com o professor ou com um coordenador, que tem a hierarquia do “aquele que sabe”.

O contato das crianças com a arte como experiência estética tem força potente na construção do poético do cotidiano infantil, que está muito conectado com a vida delas e suas brincadeiras. Quanto da experiência da linguagem da Flexible tem relação com esta natureza da infância?

Eu gostaria de acreditar que tem muita. Eu sinceramente acredito que você nunca sabe quanto peso tem as experiências dos devaneios da infância, mas, paradoxalmente, estamos compostos por uma sucessão de acontecimentos que ocorreram neste período vital e que, certamente, nos constituem hoje.Quanto ao que é pertinente à Flexible, eu acho que reúne as qualidades necessárias para gerar nas crianças uma abertura do seu potencial como atores de suas próprias questões, independentemente da disciplina artística que se projeta em tal acontecimento e que esse é o valor mais poderoso que tem para oferecer: aproximá-las da possibilidade de redefinir, de acordo com seus gostos e interesses pessoais,  a noção de prática artística.

Como a sua vida de artista está relacionada com o projeto? Seria interessante saber sobre os outros profissionais envolvidos.

De alguma forma, eu acho que o que mais envolve meu lado artista ao meu lado diretor da Flexible está na forma de olhar: certo charme para decifrar o que eu ainda não sei, mas eu reconheço que investigar a sua forma pode ser interessante; o prazer pelos processos e certa obsessão por olhar as coisas por outro lado, ou seja, não se contentar pela convenção do estabelecido e me desafiar a pensar “e o que aconteceria se isso fosse diferente?” A partir daí eu reflito, me mexo, faço, paro e começo de novo.Acho que a equipe Flexible tem muito isso: cada um, em sua área, é apaixonado pelo que faz e não descansa nos formatos existentes.Assim, é muito fácil na hora de desenvolver os conteúdos ou de discutir algum caso pedagógico específico, começar a partir da profundidade das coisas para a periferia dos seus resultados.

fotos: registro Flexible

Quais foram os melhores feedbacks que já tiveram e que lhes deu a certeza de que o caminho e o coração do projeto era lindo e estava sintonizado com as crianças? Já tiveram um depoimento especial nesse sentido? Como vocês observam isso no processo?

Eles são muitos e variados: há alguns que permanecem desde o primeiro dia e ano após ano notamos como o seu modo de fazer as coisas está estreitamente alinhado ao aspeto mais conceitual do laboratório, quando alguns pais nos dizem que não querem saber do colégio (tradicional), eles esperam que chegue o dia do Flexible, quando vemos que eles mesmos trazem material de trabalho, de casa, afirmando o trabalho gerado no Lab. Também tem conseqüência no cotidiano, quando ouvimos eles conversando entre si e demonstrando o quanto eles gostam de estar lá e, acima de tudo, quando reconhecemos a sua marca pessoal em seus processos. Para concluir esta resposta posso citar uma conversa que uma mãe me contou:

_Chiara (então com 9 anos de idade, agora com 12  e ainda faz parte do Flexible):

Mamãe, a educação está muito errada!

_Mãe:

Por que, filha?

_Chiara:

Porque está ao contrário

_ Mãe:

Como assim ao contrário?

_Chiara:

Sim mãe, ao contrário porque deveríamos ir todos os dias para a Flexible e um só pra escola. Não todos os dias à escola e um só para a Flexible, se na Flexible aprendo muito mais! (Risos)

Veja abaixo alguns dos vídeos produzidos pelas crianças!

Grupo de cinco a seis anos

El fuego from flexiblelab on Vimeo.

Grupo de 7 a 9 anos

El mundo misterioso from flexiblelab on Vimeo.

Grupo de adolescentes

Drawdio from flexiblelab on Vimeo.