Colunista

Latin Lab

Por: Latin Lab

* publicado originalmente em LatinLab

Muito se fala de “transmídia”, mas o que são esses conteúdos? Existem projetos de transmídia infantis? Como são enfocados esses projetos na Argentina e no resto da América Latina? Gonzalo Esperança, produtor executivo do estúdio Nuts Media conversou com o LatinLab a respeito desses temas.

Você considera que os conteúdos transmídia podem ter uma função educativa no sentido amplo? Eles podem inspirar a aprendizagem, a investigação, a ação?

Os conteúdos transmídia podem ter uma função educativa, tranquilamente. Quando falamos de “transmídia”, estamos falando da maneira de contar uma história através de diferentes plataformas. Cada uma delas se complementa, “atravessa” a história. Assim, esse conteúdo pode ser educativo e dessa forma, pode chegar ao espectador e ao mesmo tempo consegue fazer com que ele deixe de ser um espectador passivo, e se converta em um “prosumidor” (um consumidor que produz). Acredito que a parte mais atraente desse tipo de narrativas é atingir uma participação ativa na história.

Quais exemplos de transmídia infantis você pode mencionar na América Latina?

Na Argentina, podemos mencionar dois exemplos que se aproximam desse conceito. Um deles é Zamba, que por um lado não foi concebido como um projeto transmídia. Devido ao êxito que teve, terminou se transformando nisso. Ainda que possamos vincular Zamba mais com um projeto denominado “360º”, que abarca diferentes plataformas, ele não tem inter-relacionamentos entre as diferentes plataformas, não cobre aspectos diferentes da história.

O outro exemplo que podemos mencionar é o de “Os criadores”. Indo além do fato de que não coincidem com a linha do conteúdo, esse conceito se aproxima mais de um projeto transmídia. O que acontece nos capítulos da série é complementado e afeta diretamente o que acontece nos games, na realidade aumentada e no semanário “Kid News”.

creadores

Los creadores (“Os criadores”), Pablo Aristizabal, A365 Studios, divulgação.

 

Como desenvolvedor, com certeza existem muitas questões que você leva em conta quando pensa em um conteúdo transmídia. Quais são os elementos-chave desse processo?

Uma chave a ser considerada é a importância de se deixarem certas consignas ou “lacunas narrativas” na história, para que elas possam ser desenvolvidas em outras plataformas. Por exemplo, se eu sei que, em certo momento da série vou complementar ou beneficiar um usuário com mais informação caso ele se comprometa com o universo lúdico em um game, o clímax nessa parte deve ser construído para conseguir o interesse necessário. Se eu tenho esse controle desde o momento da escrita da história, eu ganho muito terreno. E isso é bastante diferente do trabalho que tem que ser feito para levar a história a outra plataforma.

Também é indispensável contar, no começo do projeto transmídia, com um game designer e com um community manager. Essas eram as duas figuras que, em alguns casos, eram incorporadas pelos projetos, à medida que avançavam e queriam expandir a outras plataformas, como games e redes sociais. Mas para esse tipo de conteúdos eles têm que trabalhar em conjunto com os roteiristas para saber quando, onde e porque eles vão atravessar a história em outros âmbitos.

Como você vê a situação da indústria do transmídia na América Latina?

Esse tema está sendo debatido em todos os encontros latino-americanos que tên a ver com o audiovisual. A globalização da informação faz com que os excelentes recursos criativos latino-americanos sejam aproveitados. Mas nós estamos nos encontrando com dois problemas: o primeiro é a ideia errônea instaurada no mercado de que esses projetos são um investimento faraônico e que não contamos com financiamento adequado na região. No meu humilde ponto de vista, isso não acontece assim. Uma pessoa pode criar esse universo e aplicar estratégias de low cost para poder viralizar e ir introduzindo o espectador no universo. Por exemplo, se eu tenho pensado criar um universo onde eu decidi utilizar uma série de animação, games, histórias em quadrinhos, redes sociais, comunidades, etc. eu estaria cometendo um erro ao tentar conseguir fundos primeiro para a série, que é o que é mais caro da minha propriedade intelectual. Eu teria que começar criando a comunidade web, alguns jogos simples ou HQ’s digitais.

Neste momento, estamos terminando o roteiro de nosso terceiro longa-metragem animado “Tierra de humo”. Mas o longa vai ser o resultado final de nossa IP, uma vez que é muito difícil e improvável que a gente consiga fundos para o filme agora. Mas nós vamos ir criando a comunidade e contando a prequela através de comics digitais e, se não arrecadamos dinheiro para fazer o filme com essas ferramentas, iremos, pelo menos, captando adeptos para aguardar a história.

O outro problema com o qual nos encontramos é que não existem produtores transmídia formados. Esse tipo de produtor não tem que saber tudo o que acontece nas outras plataformas, mas, sim, deve ter conhecimentos de cada uma delas e poder coordenar aos diferentes produtores.

Uma coisa parecida acontece com a animação. Temos excelentes escolas que ensinam como usar um software, ou com que equipamentos trabalhar, mas elas não ensinam como contar uma boa história, muito poucas escolas fazem isso. Por isso, para criar indústria, estamos trabalhando desde a docência com o Nuts School.

Você pode nomear alguns conteúdos transmídia de referência no mercado para o público infantojuvenil?

O maior transmídia que existe hoje é Star Wars. George Lucas pensou nesse universo como sendo contado através de cinema, com prequelas, sequelas, games com a expansão da trama, séries animadas que contam parte da história e que estão vinculadas diretamente à ideia central.

Outro grande exemplo é o universo Marvel, que nasceu nos HQ’s e que hoje em dia tem tido seu universo expandido através de séries e filmes relacionados entre si.

Muito obrigado, Gonzalo!

Imagem do destaque: La máquina que hace estrellas. © Aleph Media, Cinema Uno, Nuts Studios, Argentina. Divulgação

 

 

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LATINLAB é um laboratório de investigação, criação e reflexão em torno da televisão infantil e das multiplataformas na América Latina.