Colunista

Gabriela Romeu

Por: Gabriela Romeu

Aurora amanhece disposta a descobrir o mundo. Não levanta logo no primeiro acorde, como de costume. Mas a manhã é puro convite e a menina veste seu vestido branco, ajeita o chapéu na cabeça, sacode sua boneca Valentina e chama Felizardo, seu amigo (imaginário) de todas as horas, menino por fora e “rio por dentro”. Juntos, vivem um dia inteirinho de peripécias.

Enquanto Aurora desvendava o mundo, a bandaMIRIM descortinava o teatro (dito) infantil em São Paulo com a estreia do musical Felizardo em 2004. Felizardo transbordava um clima de encantamento, quentinho como bolo saído do forno da casa da avó. Era uma trilha por uma infância exercitada de um jeito simples – brincadeiras de quintal e histórias contadas ao pé da cama.

BANDA MIRIM COM O ESPETÁCULO FELIZARDO

Espetáculo Felizardo – foto por Élcio Paraíso.

Há dez anos, quando a bandaMIRIM nascia com Felizardo, a cena teatral infantil paulistana já estava bem consolidada. Diversas companhias e outros tantos encenadores já tinham rompido com uma dada linguagem tatibitate, temas “adequados” ao público infantil, batidas adaptações dos contos de fadas (ou da Disney), entre outros cacoetes e vícios ultrapassados (ainda que persistentes). Era evidente, no entanto, o frescor que o grupo levava aos palcos.

Na plateia, a gente se divertiu logo de cara com aquela trupe contagiante que parecia se divertir muito em cena. A banda é formada por um bando de amigos. Tem Foquinha e Nina Blauth na percussão, Nô Stopa na lira, na perna de pau e no canto, Edu Mantovani nos malabares, Olívio Filho no acordeão, Tata com sua guitarra à tiracolo, a voz afinadíssima de Rubi, Lelena Anhaia no baixo, os sopros de Simone Julian. Depois se juntaria à trupe o ator Alexandre Faria.

FOTO ÉLCIO PARAÍSO/BENDITA

Espetáculo Felizardo – foto por Élcio Paraíso.

Corpo miúdo –quase frágil, sempre ágil–, Claudia Missura interpreta em Felizardo um dos papéis mais difíceis no teatro infantil: a criança. Aurora é menina pé de vento, curiosa por saber como é que a mula sem cabeça pensa, que chora ao ritmo de chorinho na hora do banho. É danada, elétrica, afiada, imaginativa, engraçada e um pouco caprichosa, tudo misturado com maestria pela atriz veterana, que não escorrega em estereótipos.

Alinhavando as canções do musical, a dramaturgia de Marcelo Romagnoli tecia palavras e imagens engenhosas, entrelaçando música, teatro e circo. Já despontava com uma quase prosa poética com gosto de doce de goiabada, que tem o ponto certo para não desandar nem melar demais. Marisa Bentivegna iluminava e ampliava o mundo lírico de Aurora, Felizardo e toda a trupe.

A banda se surpreendeu ao ganhar na estreia dois prêmios (melhor espetáculo musical pela Associação Paulista de Críticos de Arte e melhor trilha sonora original pelo Prêmio Femsa de Teatro Infantil e Jovem) e muitos outros convites para apresentar Felizardo, que reunia canções de Tata Fernandes, Zeca Baleiro e Nô Stopa. Para quem assistia na plateia, nenhuma surpresa.

Em 2007, a bandaMIRIM leva aos palcos O Menino Teresa, uma viagem intimista pelo universo dos gêneros, tema pouco comum na cena teatral para crianças. Teresa é outra menina vivida por Claudia Missura, que no palco faz parceria com a compositora Tata Fernandes – a maternal Senhora Cabeçuda. Ótima cumplicidade em cena.

Foto: Georgia Branco

Espetáculo O menino Teresa – foto por Georgia Branco.

Teresa é “a maior encontradora de coisas da Terra” e coleciona muitos achados (palitos de fósforos e outras coisas mais). Curiosa, tem “olhinhos de farol”. Fala a língua das coisas. Nasceu de susto, diz não temer nada. Sua missão: entrar no quartos dos meninos, desvendar o universo masculino. Ao colocar boné e vestir cueca (“coador de pum”), fica com pensamentos diferentes. A(o) menina(o) Teresa tira as coisas do lugar-comum. E bota a plateia no lugar de quem pensa.

As músicas de Tata Fernandes são compostas com a síntese e a simplicidade do universo infantil. Observam o avesso do mundo, espiam dentro das coisas. Subvertem a ordem. São despretensiosas como a menina Teresa, que canta e ri da canção da cueca. As letras parecem muitas vezes uma conversa ao pé do ouvido, criadas por um adulto sensível ao mundo infantil.

No mesmo ano, 2007, a banda pegou um atalho pela estrada do Bromongó, pelo Brasil de dentro, interiorano, um “mundo bão”, com o musical Sapecado. Lá vive Assunta Felizarda de Jesus (Claudia Missura), uma Dorothy de Oz sertaneja, com seu jeito sacudido e divertido sotaque caipira. Como dizia o mineiro Guimarães Rosa: “O sertão está dentro da gente”. Bromongó também.

Na travessia da heroína Assunta, acompanhada pelo fiel cão Rex e pelo carteiro-seresteiro Adauto (Rubi), ela vence brejo, cruza cafezal, escapa dos encantos da Mãe d’Água, é desafiada na encruzilhada. Segue bem acompanhada pelo coro da banda, que entoa uma trilha de sonoridade comovente, com direito a duelo entre o diabo e uma benzedeira e a paixão de uma vaca por um sapo – perfeitas misturas de singelo lirismo e humor afiado.

Foto: Georgia Branco

Espetáculo Specado – foto por Georgia Branco.

O texto de Romagnoli é carregado de sabedoria matuta – “Essa vida, pescador, é emprestada”, diz o peixe durante a travessia feita pelo canoeiro, Alexandre Faria, que protagoniza cena de intensa magia, memorável. Sapecado parece saído das lembranças dos personagens interioranos da infância de Romagnoli, conterrâneo de Missura, ambos lá de São José do Rio Pardo (SP). Parece também habitar algum cômodo das memórias de nossos pais, tios e avós pés na roça.

Ao mirar o repertório da bandaMIRIM em uma década de jornada, logo percebemos que o grupo nunca escolheu se assentar na zona de conforto, seguir por uma trilha só, já percorrida. O caminho foi sempre cheio de riscos. Nessa trajetória, em 2010, a banda funde o erudito e o popular, o circo-teatro e a ópera, em Espoleta, uma opereta cheia de trocadilhos divertidos e colagens musicais. O encontro de Puccini e Clementina de Jesus.

A peça traz as peripécias de um criado trapalhão, Espoleta, o anti-herói, que leva a família mambembe Solemar para o castelo de seu patrão, um barão metido a tenor, desafinado que só. Homenageando os personagens trapalhões e malandros do imaginário popular, o Espoleta de Claudia Missura é o Arlequino nordestino, nosso Pedro Malazartes, um João Grilo – reis das presepadas, que fazem da astúcia uma verdadeira arte.

Banda Mirim 4 de fevereiro de 2013    Foto: Alessandra Fratus

Espetáculo Espoleta – foto por Alessandra Fratus.

Na dramaturgia, o elenco é desafiado de vez e ganha papéis bem delineados, que vestem bem a trupe. Na galeria de personagens que se encontram na noite da Lua de São Pastelão, Foquinha é uma cozinheira divertidíssima, tira quitutes e acordes de suas panelas, Nina Blauth interpreta uma baronesa fogosa e Lelena Anhaia vira uma Zacarias de saia ao interpretar a filha mimada do barão.

Sempre dada a experimentações, a banda troca alguns papéis em A Criança Mais Velha do Mundo (2011), talvez o texto mais metafórico do repertório. Na direção, Claudia Missura. A cantora Claudia Dorei cria a executa a trilha sonora que embala a história de uma menina e uma velha que se encontram numa festa de aniversário. Passeiam filosoficamente sobre as dimensões de tempo, que rodopia no gira-gira que compõe a cenografia de uma certa economia poética de Marisa Bentivegna.

Música e teatro, sempre bons parceiros de cena dessa turma, foram ganhando novas composições e perdendo fronteiras. Se em Felizardo o texto era uma costura das canções, é um ponto invisível que separa essas linguagens no musical O Fantasma do Som (2013), que vem de algumas experimentações de Rádio Show (2011). O espetáculo que trata da era do ouro da rádio é cantado em forma de jingles, pontuado por muitas sonoridades, e a música segue desenhando a narrativa. Um convite a ver o invisível.

Marcelo Romagnoli joga cada vez melhor com os talentos dos integrantes da banda. Brinca com seus intérpretes (de texto e sonoridades). Claudia Missura, que sempre protagonizou os espetáculos do repertório, é a radioatriz que é colocada de escanteio com a chegada de uma novata a lá Carmem Mirada (Nô Stopa, inspirada em seus trejeitos cheios de brejeirice e manha). A banda ri.

De Felizardo a O Fantasma do Som, essa trupe que coleciona prêmios extrapola rígidas definições de faixas etárias na criação de seus espetáculos. É como disse Missura certa vez numa entrevista: “A gente faz musicais para crianças de 8 a 80 anos”. Criança, mãe, tio, vizinho, avó e papagaio se divertem juntos na plateia. Que venha a próxima década da bandaMIRIM.

Foto: Adalberto LIma

Espetáculo O Fantasma do Som – foto por Adalberto Lima.

Texto originalmente publicado em revista comemorativa dos dez anos da bandaMirim.

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Gabriela Romeu
Gabriela Romeu

Gabriela Romeu é jornalista e documentarista. É uma das idealizadoras do projeto Infâncias (www.projetoinfancias.com.br), que está documentando a vida de crianças em diferentes lugares do país. Neste espaço, são publicados registros e vivências do projeto, além de outras reflexões sobre as infâncias.