Colunista

Garatújas Fantásticas

Por: Garatújas Fantásticas

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O centro cultural Southbank Centre, em Londres, organiza todo ano um festival de duas semanas para as famílias. É o Imagine Children’s Festival, que terminou no domingo, um dia depois de Garatujas Fantásticas ter assistido a uma palestra com o autor britânico Anthony Browne, mais conhecido por seu emblemático Gorila, que em 2014 completa 30 anos.

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[Quer saber mais sobre ele? Tem um texto maravilhoso de Ana Garralón na Revista Emília deste mês. Além de mergulhar no planeta dos macacos, está ali uma grande novidade: depois de anos esgotados, seus livros voltam a ser publicados no Brasil, pela Pequena Zahar].

Às 11h de sábado, em um auditório lotado de crianças com seus livros favoritos do autor em mãos, Anthony Browne abriu a conversa dizendo que se transformou em um contador de histórias a partir de uma brincadeira que costumava ter com o irmão, um ano e meio mais velho. “Shape game (em tradução livre, jogo de formas) é algo muito comum que continua existindo por aí. Consiste em pegar um papel, desenhar uma forma e pedir para outra pessoa continuar a partir do que ela imagina. Depois, quem desenhou primeiro tem de adivinhar o que o outro fez. Esse é um jogo em que as crianças vão melhor do que todo mundo, pois não há pretensão em ser artista, a não ser se divertir a partir da imaginação”, explicou o autor. Abaixo, um trecho da palestra em inglês.

Para Browne, a brincadeira virou um processo criativo que o acompanha até hoje. Foi a partir de enxergar coisas nas imagens que ele sentiu vontade de contar histórias feitas de ideias ilustradas. Mais tarde, estudou na Escola de Arte de Leeds e se tornou  o autor consagrado que é hoje – vencedor do prêmio Hans Christian Andersen, o maior reconhecimento internacional para criadores de livros infantis, em 2000, ele também foi nomeado Children’s Laureate, no Reino Unido, entre 2009 e 2011.

Plateia lotada e atenta, do palco veio a pergunta: “Quem quer desenhar uma forma”? As crianças levantaram as mãos e começaram ali a brincadeira. A cada uma que ia e desenhava um círculo ou um quadrado, uma salva de palmas e as palavras mais carinhosas e estimulantes do autor: “Maravilha, lindo, incrível, que forma fantástica!”. Ele repetia a pergunta e outra criança subia ao palco para botar ali, no telão, o que enxergava na forma do colega anterior. É isso, aquilo? Não é isso? “Fantástico, lindo, perfeito, adorável, melhor ainda.”

Em 30 minutos, várias crianças puderam se expressar e mostrar, a cada adulto na sala, o que está por trás do processo de criação livre e solto. A imaginação não tinha limites e a alegria delas, de muito pequenas até 13 anos, era contagiante.

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Vídeo e fotos: Garatujas Fantásticas

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Vídeo e fotos: Garatujas Fantásticas

A brincadeira deu sequência a uma série de curiosidades sobre como Browne trabalha. São informações soltas, que ele emendava apresentando seus livros num formato de contação de histórias. Aqui, resolvemos reuni-las em tópicos, meio “perguntas e respostas”, como ele gosta. Vamos lá?

1 – O gorila 

O autor disse que seu pai era um homem muito forte e que lutou na Segunda Guerra Mundial, mas que ao mesmo tempo preservava a ternura sendo bastante sensível. Além de estimular a prática de esportes para que os filhos fossem fortes e fisicamente saudáveis, “Sir Browne Pai” costumava ler, desenhar e ouvir muita música com os meninos. O Gorila é um pouco como ele vê o pai, um ser que foi tão cheio de força, convicções e, ao mesmo tempo, tão doce.

2- Jogo dos sete erros

“Spot the diferences” é a brincadeira em que analisamos e notamos as diferenças entre duas imagens parecidas. Esse jogo, assim como o das formas, continua sendo um dos favoritos do autor. No palco, ele fez questão de dizer que adora aplicar isso em sua obra, e que um bom exemplo é o que segue abaixo, em que Hannah (livro Gorila) está na mesma posição, mas as cenas (e os sentimentos, incluindo cores e emoções) são completamente opostos.

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3- Todos os artistas brincam de dar significado às formas

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Crédito: http://ostimusic.com/blog/2008/page/5/

Foi depois de dizer essa frase que ele mostrou a escultura criada por Pablo Picasso. Colocou no telão e perguntou à plateia do que se tratava a imagem. Só as crianças responderam: “Tem um carro na cabeça do macaco.”

4) Tony Browne, 6 anos

“Quando criança, era assim que eu desenhava, como toda criança. A questão é que a gente cresce e começa a dizer que não sabe desenhar e abandona essa forma de expressão, essa linguagem. Por que tem de ser assim? Pais, avós e todo mundo, vamos brincar mais de Jogo das Formas. O mais bacana desse jogo é que não há pressão.”
No desenho, Browne disse que resolveu fazer um par de pernas como se fosse o dele. E então, porque gostava muito de piratas, teve a ideia de desenhar um pertinho do tênis. Quando percebeu, estava contando a história de um pirata que gostava de escalar suas meias. =]

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5) Inspiração

Para fechar, disse que costuma sempre emprestar referências a partir do que vê, ouve e sente. Foi depois de assistir ao filme King Kong que não parou de pensar em um gorila segurando um urso de pelúcia, por exemplo. Seu ídolo? Maurice Sendak. Mas toda obra de escritores e artistas que admira também costumam ser inspiradoras. Tanto que seu próximo livro, que ainda não foi publicado, será inspirado em clássicos da literatura. O protagonista será Willy, seu simpático chimpanzé, numa coleção de aventuras. Pulando de página em página no telão, Browne perguntava de onde vinham aquelas história e as crianças, vidradas, respondiam: Alice no País das Maravilhas; Rapunzel; Pinóquio; O Vento nos Salgueiros; Robinson Cruzoé e outros.

Naquela manhã, ficou muito claro para mim o quanto as crianças gostam do Anthony Browne, e como isso é correspondido por ele. Mas ficou claro também que, acima de tudo, as crianças que estavam ali gostam de ler e contar sobre o que leem. Que sensação boa de compartilhar, não?

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Com foco em arte e literatura, o Garatujas Fantásticas é uma iniciativa do Estúdio Voador, uma ponte para que adultos e crianças experimentem o mundo juntos, troquem olhares e experiências.