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Por: comKids (Redator)

 Giovana Botti para o comKids

A série brasileira “O show da Luna” une linguagem musical a conteúdo científico

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“O show da Luna!”, TV Pinguim. Dirigida por Célia Catunda e Kiko Mistrorigo e produzida por Ricardo Rozzino.

Uma menininha curiosa, inventiva e sempre em busca de respostas no mundo é a personagem principal da série de animação com maior audiência no Discovery Kids em 2015 *. “O Show da Luna!” é uma produção brasileira que tem várias novidades para compartilhar: estreou uma nova temporada no canal este ano, está sendo exportada para outros países, vai ser tema de musical no teatro e tem previstos vários lançamentos de produtos licenciados com apelo científico.
O protagonismo feminino é uma das marcas do programa , a garotinha não tem figurino cor-de-rosa e nem adultos para lhe dar perguntas e respostas, como oráculos. Ao lado do irmãozinho Júpiter e do furão de estimação Cláudio, ela formula suas próprias hipóteses, experimenta e tira conclusões sobre curiosidades científicas, sem perder o envolvimento de uma boa história.
A criação da série é dos brasileiros Célia Catunda e Kiko Mistrorigo, da TV Pinguim, também responsáveis por outra animação de sucesso, a animação Peixonauta. O comKids conversou com Kiko Mistrorigo sobre o sucesso de “O Show da Luna!”, também exibido na TV Brasil e na TV Aparecida. O programa estreou na TV aberta nos Estados Unidos, já está em cerca de 80 países e alcançou o top 3 no Reino Unido (canal Tiny Top da Sony). Além disso, a série está sendo igualmente exibida no Youtube. Tudo isso, porque ciência não é brincadeira de menino, é de quem quiser brincar.

* Considerando todos os indivíduos com TV paga. Fonte: Kantar Ibope.
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Kiko Mistrorigo, criador de “O show da Luna”, ao lado de Célia Catunda. Foto: divulgação

comKids – Qual o segredo de Luna? É a boa fórmula de falar de ciência para criança em idade pré-escolar sem ter um tom professoral?

Kiko – O segredo eu não sei. Mas, sem dúvidas, em tudo o que a gente faz aqui, a gente evita esse tom professoral. É uma coisa em que a gente presta muita atenção porque geralmente o conteúdo educativo para criança peca nesse aspecto. Eles deixam claro para a criança o que ela está aprendendo. E em “Luna”, o que eu acho é que a gente empacota bem o conteúdo. Acho que a TV Pinguim é uma empacotadora de conteúdo, a gente sempre busca conteúdo e depois empacota. Como a gente trabalha aqui primordialmente com instinto, a gente está basicamente contando boas histórias. Nada mais do que isso. A gente está falando de boas histórias, de envolvimento emocional, com curva dramática, envolvimento emocional com os personagens… então, se você adquire conhecimento ou conteúdo científico – o que for – através de uma relação afetiva com os personagens, é uma coisa muito interessante, muito bacana. Porque toda criança adora aprender e, nessa primeira infância, adora dizer para os pais o que aprendeu.
O processo de show da Luna teve uma série de razões. Depois que a coisa acontece, depois que dá certo, a gente fica teorizando… “Ah, foi por causa disso, aquilo… porque ela é uma menina que não é princesinha, não é cor de rosa…porque é super-espontânea…porque ela tem um irmão que ela considera bastante nas histórias, conta as coisas para ele… porque não tem nenhum adulto na hora em que ela vai formular”… Ela passa essa ideia – que, é uma coisa que a gente sempre quis: “Olha, você, sozinho, pode ir atrás e formular suas próprias hipóteses”. E dizendo ainda mais: “todas as descobertas científicas foram feitas através de hipóteses e da imaginação”.

C – Da curiosidade…

K – Da curiosidade. Porque uma coisa puxa a outra. E em ciência não há uma verdade final. Esse termo “ é cientificamente provado”, a gente nem fala, passa longe. Toda vez que está acabando o episódio, ela formula mais perguntas. E por incrível que pareça, muitos adultos de gerações anteriores, como a minha, incomodam-se um pouco com isso. Porque a gente aprendeu o que é “cientificamente provado”. Alguém foi lá, com mais capacidade do que eu, olhou e disse: “está aqui”. Não existe isso. Uma pergunta gera outra, que gera outra e que gera outra… Essa é a essência do episódio: protagoniza o feminino, a capacidade de qualquer um de formular questões – de encontrar as verdades não na nuvem, não no Google, e não perguntando para alguém… é você se esforçando para isso. Experimentando e errando, indo atrás. E, por último, que a ciência nunca termina. Perguntas que geram outras perguntas.

C – Esse protagonismo de uma menina na série foi pensado desde o início?

K – Não foi que a gente falou assim: “vamos fazer uma menina que gosta de ciência”. Não é assim. Eu sento de frente com a Célia, que desenha super bem, e a gente vai lá brincando e vão surgindo ideias. O Peixonauta foi assim, a Luna foi assim, o Gemini foi assim, a Rita foi assim… surgem ideias e uma dia aquilo dá uma encaixada. Nesse processo todo, de repente a gente percebeu isso daí.
A gente sempre se ligou na desigualdade entre gêneros, a gente sempre se ligou numa série de questões que hoje em dia são muito discutidas, mas antigamente não eram tanto como o machismo, a homofobia, tudo isso. De repente você tinha uma menina ali e aí e a gente foi percebendo… porque você traz a ideia e começa a apresentar, ou para uma televisão, ou para um distribuidor, ou para uma plataforma digital ou para uma criança e você vai percebendo. E aí você vai notando que tem uma questão no ar sobre as carreiras científicas… De repente a gente percebeu, foi apresentando isso por aí e percebeu: “Puxa, o Ministério da Educação do Canadá tem uma preocupação enorme em estimular as mulheres para as carreiras científicas porque o ambiente fica muito mais saudável dentro da universidade. A França tem a mesma preocupação no governo e mais; a L’oreal tem o programa Women in Science (L’Oréal-UNESCO For Women in Science), que é justamente para promover a mulher para a carreira científica…” Aí você começa a ver que hoje em dia nas redes sociais o assunto percorre. E é uma coisa bastante clara que, para a menina, os adultos desde cedo vão podando isso. Para a menina, vai dar de presente boneca, vassourinha, tudo para brincar de casinha. É como se ela já fosse se preparando para receber o príncipe e ser feliz para sempre. O homem, não. Ele tem skate, luneta, lente de aumento, microscópio, kit de química… É muito mais desafiador.
Quando a gente apresentou a primeira bíblia, tinha uma página que mostrava um monte de brinquedos “típicos” de menina e neles a gente fazia um “X” e falava assim: “a gente está propondo que as meninas desde cedo, além de poder brincar de carrinho, obviamente, possam ter interesses tão grandes quanto dos meninos, e sair desses estereótipos”.
Quando veio a Luna não foi fácil também. Os canais temeram deixar esse poder na mão da criança. Eles acharam que isso não seria muito bem aceito. Como assim, uma criança formula? Não tem nenhuma professora ali avalizando as hipóteses dela? Não entrou nenhum robô? Ela não consulta a internet? A Luna vira o objeto. Na terceira temporada tem um episódio em que ela fala: “nossa, como o cachorro ouve tão bem?” E quando ela vira cachorro, ela chega para o cachorro de verdade e fala assim: “Nossa, você ouve tudo!” Ele não tem que falar: “Sim, Luna, nós os cachorros ouvimos.” Ela é que diz: “você ouve o carro lá de longe…” Isso é que é o bacana. Ela é que fala para o objeto: “Como é incrível isso em você”.

C – E como vocês conseguiram vencer essa resistência dos canais?

K – Batendo o pé. Porque no fundo a gente está lidando com muita insegurança. E a gente teve alguns consultores importantes de ciências. Teve uma americana, a Laura Brown, e teve o Walmir Cardoso, um astrônomo e professor bastante conhecido no segundo grau que participa muito de alguns programas na TV Escola. Ele entendeu isso na hora e disse: “vocês descobriram como trazer o método científico para as crianças. Método científico é isso… só que vocês foram além”, ele falou. Quando você encarna a situação, você se depara com as dúvidas, vai conseguir algumas respostas que vão te levar a outras dúvidas.
Os consultores tiveram um papel muito importante. Foi feito um pedido para eles: curiosidades científicas – a gente já tinha algumas ideias aqui, mas queria mais – que fossem engraçadas, visualmente interessantes, aí a gente foi indo. Como a teoria de que a abelha tem um gesto para se comunicar, ela dança. Então é o primeiro episódio, da abelha dançando para indicar – quando ela volta para a colmeia – onde está a flor, a fonte de alimento que ela descobriu. Ou como os anéis de Saturno, que são feitos de poeira, e muita criança acredita que dá para andar por lá… e aí foi indo. Essas ideias são passadas para nós e, aprovadas as curiosidades científicas, então o consultor dá uma folha de papel com um conteúdo. Aí a gente faz uma leitura desse conteúdo junto com o roteirista para saber se ele entendeu. Então o roteirista só gasta a energia dele para fazer uma boa história. Quando o roteiro está pronto, a gente devolve o roteiro para o consultor para ele ver se não tem nenhuma informação errada. Esse é o papel dele.

C – E tem um elemento importantíssimo que é a música.

K – Não tem como não ter (música) nessa faixa etária. E aí a gente chamou o André Abujamra, uma pessoa extremamente versátil, superbacana, super bom músico. Ele fez 52 músicas, uma totalmente diferente da outra: bolero, tango, samba, rock, salsa…ele fez de tudo o que você pode imaginar. Isso é o grande barato.

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“O show da Luna”, TV Pinguim. Dirigida por Célia Catunda e Kiko Mistrorigo e produzida por Ricardo Rozzino.