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Por: comKids (Redator)

Passados 15 anos da pesquisa MidiaQ, o diagnóstico sobre os enfrentamentos postos para o desafio de criar para o público infantojuvenil ainda é atual em muitos sentidos. Ana Helena Meirelles Reis, presidente da MultiFocus Pesquisa de Mercado, que realizou a pesquisa, conversou com o comKids sobre os parâmetros de qualidade da TV para crianças e jovens. “Os princípios em si são atemporais”, conclui Ana Helena. Acompanhe a seguir a entrevista.

Ana Helena Meirelles Reis, Multifocus, divulgação.

– Qual a importância da pesquisa feita naquela época, naquele contexto de consumo infantojuvenil de mídia?

Vivíamos, em 2004, um momento de busca para a formação de uma nova mentalidade, norteada pela responsabilidade social dos adultos, fossem eles pais, educadores, empresários, diretores de marketing, patrocinadores, anunciantes, mídias, criadores e produtores de programas de televisão, ou outros.

Era um momento de reflexão a respeito do papel da televisão não só como mero entretenimento, mas como um veículo de formação de valores; surgiu então a iniciativa de fazer uma pesquisa que indicasse o que os pais entendiam como uma programação de qualidade para seus filhos e, por outro lado, o que atraia a audiência infantojuvenil.

O ineditismo dessa pesquisa veio não somente do levantamento das expectativas dos pais, mas do cruzamento entre essas expectativas e a receptividade de mais de 80 programas que iam ao ar na televisão brasileira naquele momento junto à audiência composta de crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos, de classe social A, B e C. Isso gerou uma lista de programas considerados de qualidade tanto por pais como por crianças e adolescentes e, mais do que isso, a identificação dos motivos pelos quais eles eram aceitos possibilitando, assim, a criação do que se denominou os 10 parâmetros de uma programação de qualidade.

Foi sem dúvida o primeiro momento de construção de parâmetros de qualidade para uma programação voltada à infância e adolescência, num ambiente em que ainda não existiam movimentos no Brasil com esse foco. Vale lembrar que nessa época a relação entre produção e consumo audiovisual pela infância era de via única ou seja – a televisão estabelecia a sua grade de programação e não havia ainda a opção de escolha de outros conteúdos em outras plataformas.

Os resultados da pesquisa causaram grande impacto por revelarem uma consciência muito clara por parte tanto dos pais como de seus filhos a respeito dos valores que esperavam ser transmitidos na produção de conteúdo audiovisual.

 

– O que mudou de forma mais contundente desde então?

Sem dúvida o que mais mudou desde então foi a presença e o alcance da Internet como um veículo não só de transmissão de conteúdos audiovisuais de entretenimento e informação, mas também de produção de conteúdos fora do circuito das grandes mídias. Isso gerou uma grande mudança de foco, antes na escolha de uma grade de programação televisiva, agora na produção de conteúdos para diferentes telas.

Competem pela atenção das crianças e jovens enquanto estão online não somente dos formatos tradicionais de desenhos, séries, esportes, etc, oferecido pela presença dos canais de TV nesse novo meio, mas também de games, tutoriais, música, humor, enfim, tudo o que se possa imaginar como resultado de produções independentes dominando canais audiovisuais liderados pelos chamados YouTubers.

Nesse sentido, dos 10 parâmetros de qualidade da pesquisa, alguns parecem ter assumido uma outra roupagem, mas estão presentes hoje pela possibilidade de escolha de um cardápio “on demand”:
Atratividade – uma programação que fale a linguagem dos jovens
Identificação – personagens, temas e situações que tenham a ver com essa geração
Fantasia – estimular a brincadeira, a fantasia, fazer sonhar
Curiosidade – interesse por outras áreas como esporte, música, cultura…

 

Os 10 parâmetros da TV de Qualidade para Crianças e Jovens
1. Ser Atraente
Um programa que fale a linguagem dos jovens, que tenha música, ação, competições, movimento e humor.
2. Gerar Curiosidade
Mais do que transmitir informação, um programa de qualidade deve gerar interesse por outras áreas como esporte, música, cultura…É importante que o programa desperte a curiosidade e o gosto pelo saber.
3. Confirmar Valores
Transmitir conceitos como: Família, Respeito ao próximo, Solidariedade, Princípios éticos.
4. Ter Fantasia
Estimular a brincadeira, a fantasia, fazer sonhar.
5. Não Ser Apelativo
Não banalizar a sexualidade e não usar um vocabulário chulo. Mas, é também não explorar a desgraça alheia e o ridículo, não incentivar o consumismo, não mostrar o consumo de drogas e o comportamento violento como uma coisa normal.
6. Gerar Identificação
Colocar personagens, temas e situações que tenham a ver com essa geração. Para os pais é importante que seus filhos vejam suas dúvidas, seus confrontos e anseios sendo discutidos nos programas de televisão, que se identifiquem com as situações e extraiam daí algum ensinamento.
7. Mostrar a Realidade
Para os pais, é importante que o programa não mostre um mundo que não existe, que não iluda ou falseie a realidade.
8. Despertar o Senso Crítico
Para os pais o programa de qualidade é aquele que leva o jovem a refletir e dá espaço para ele pensar e montar uma visão crítica.
9. Incentivar a Autoestima
Respeitar e valorizar as diferenças, não transmitir o preconceito e a discriminação através de estereótipos.
10. Preparar para a Vida
Abrir os horizontes, mostrar opções de vida que ajudem o jovem a escolher seu direcionamento.

 

– As mudanças de cenário afetam a análise de conteúdo das noções de qualidade para produção infantojuvenil ou o cerne da pesquisa segue pertinente?

Acredito que, passados 15 anos, os desafios identificados na pesquisa continuam muito atuais. As noções de qualidade para a produção infantojuvenil, se hoje fossem revisitadas em uma outra edição da pesquisa, poderiam ser ampliadas com alguns conceitos sobre os 10 parâmetros que ainda não tinham emergido, por conta de um ambiente audiovisual restrito aos canais de televisão; mas os princípios em si são atemporais.

 

– Diante das mudanças de contexto – na oferta televisiva, na multiplicidade de telas e na intensidade dos hábitos de consumo de mídia entre crianças e adolescentes (TV por assinatura, streaming, celular, etc…) -, na sua opinião, estaria faltando algum parâmetro de qualidade no audiovisual infantojuvenil para uma revisão do resultado neste cenário atual?

Na minha opinião o grande desafio de hoje não é a criação de mais algum valor, mas é conseguir, num cenário de produção de conteúdos muito aberto, manter os seguintes valores: Mostrar a realidade. Despertar o Senso Crítico, Incentivar a autoestima e Preparar para a vida.
A auto-regulamentação seria a única saída e, para isso, há necessidade de uma conscientização muito maior dessa miríade de produtores que povoam os meios online, que estão presentes nos celulares das crianças e adolescentes pelas redes sociais, aplicativos, canais do youtube, etc.

 

– E você excluiria algum parâmetro de qualidade que na época da pesquisa era valorizado? Por quê?
Não excluiria, mas me preocuparia mais com o parâmetro “Confirmar Valores”. A proposta de transmitir conceitos como: Família, Respeito ao próximo, Solidariedade, Princípios éticos – é cada vez mais fundamental para a formação dessa nova geração e deve ser reforçada; corre o risco, porém, de dar margem a uma interpretação equivocada do significado desses conceitos se não for devidamente clara nas suas definições, visto que estamos atravessando um momento social delicado, com o recrudescimento de posturas conservadoras em relação ao conceito de família, divisão entre Estado e igreja, direitos humanos, homofobia, feminicídio, direitos da criança, meio ambiente, cultura e assim por diante.

Se fosse para revisitar alguma coisa em 2020 seria na interpretação desse parâmetro de qualidade.

Saiba mais sobre os resultados e a metodologia da Pesquisa MídiaQ, que completa 15 anos.