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Por: comKids (Redator)

entrevista feita por: Liana Milanez

Escrever para crianças é escrever com silêncios
… espaços, pontilhamentos…
É escrever, até, com o dedão do pé,
sem escrever a mais.
É ler com olhos de lince,
É girar que nem pião.
É existir agora.
Falar SIM,
Ao invés de não.

A cultura da infância é o que faz sonhar e é também o que ajuda a criança a crescer saudável, em todos os sentidos, reflete Karen Acioly, dramaturga, diretora teatral, atriz e escritora. Karen acumula em seu currículo criações como o FIL – Festival Intercâmbio de Linguagens  (www.fil.art.br), e o Centro de Referência Cultura Infância (CRCI) (www.conexaoinfancia.com.br), que chega aos 10 anos com o reconhecimento de seus colegas e, principalmente, de seu público, as crianças. 

Autora do poema que abre esse texto, Karen Acioly conta qual a receita para se desdobrar em tantas criadoras-empreendedoras:
– A receita é respirar bem e seguir em frente. Considerando os desafios como desafios e não como impedimentos. Cruzar mundos e fazer contato entre eles, me anima a viver, me atiça a curiosidade que gosto de ver provocada nos outros também.

Karen Acioly é muito mais. Seu currículo reúne ainda mais de duas dezenas  de espetáculos infantojuvenis escritos e dirigidos por ela, e outros dez como diretora. Entre os prêmios conquistados estão o Sharp, o Mambembe, o Coca-Cola, o Zilka Salaberry e o Maria Clara Machado. Como escritora, recebeu, em 2008, Prêmio de Melhor Livro de Teatro pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), por “Tuhu, o menino Villa-Lobos”.

Nesta entrevista para o Portal comKids, Karen fala sobre suas realizações, descreve como conseguiu depois de “looooonga” batalha
abrir um espaço dedicado às produções infantis. “Geralmente quando falávamos em crianças, nos sugeriam lugares inóspitos, feios, abandonados”, lembra ao se referir à sorte de encontrar um lugar: as crianças são iluminadas e, num momento de muita sorte, propusemos o Teatro do Jockey, uma área nobre da cidade”. E lá se vão 10 anos de realizações no mesmo local. Em tom de agradecimento, cita os parceiros que acreditaram em seus projetos.

comKids:   Como surgiu a ideia de criação do Centro de Referência Cultura Infância (CRCI)?

Karen: Percebi que não havia em nossa cidade, uma cidade tão bonita e também importante como o Rio de Janeiro, nada, nenhum equipamento público, que desse lugar à cultura da infância. E comecei a pesquisar “quem” poderia acolher essa idéia, e que lugar seria esse, onde pudéssemos começar a criar algo na linha do tempo. Algo que contivesse não um evento, mas um programa voltado para várias diretrizes fundamentais, como a construção da memória histórica e que também estimulasse a investigação, a pesquisa de linguagens e a fruição dos bens culturais. Foi uma looooonga batalha, mas, você sabe, as crianças são iluminadas e, num momento de muita sorte, propusemos o teatro do Jockey, localizado dentro do Jockey club, uma área nobre da cidade. (Geralmente quando falávamos em crianças, nos sugeriam lugares inóspitos, feios, abandonados).

O Teatro tinha na época (2003) pouquíssima frequência e era usado para dar vazão a algumas iniciativas do teatro contemporâneo, mas não tinha lá muito público não. Então, sugerimos para o Miguel Falabella (gestor dos teatros municipais na época) e também para o Ricardo Macieira (secretário Municipal da Cultura, na mesma época), que nos deixasse experimentar essa idéia lá. (Queríamos um lugar que pudesse acolher as crianças, mas um lugar bonitão…aconchegante.) Eles “deixaram”. E em 30 de março de 2003, lá estávamos nós:  num teatro-galpão, numa das áreas mais nobres da cidade.

comKids:   Você se inspirou em algum projeto lá fora para criar o CRCI? Existe algum similar em outros países?  Onde? Qual  a relação do CRCI com essas iniciativas?

Karen: Quando começamos essa idéia, eu ainda não conhecia o mundo lá dos outros mundos. (Era uma cenoura da terra encravada no Brasil) .Tinha viajado só pelo Brasil e só sentia a necessidade de pararmos a olhar para o próprio umbigo e de nos relacionarmos com as outras cidades brasileiras. Foi assim que começamos: num deserto. Depois disso, propus ao Ministério da Cultura de mapear o Brasil nesse sentido, mas ninguém deu bola. Daí, em 2005, fiz essa mesma proposta, para a França, com a ajuda do Consulado da França, no Rio, especialmente abençoada por Bertrand Rigot Muller e Marie Depalle, grandes parceiros até os dias de hoje.

Lá chegando, fiquei num estado de choque: mil festivais, estruturas, maisons dedicados especialmente para crianças…chorava o tempo todo por lá. Parei de chorar e resolvi que estávamos no início e que isso era bom.

Foi como descortinar mil mundos, sendo que o mundo que unia a tudo, era o mundo dedicado às crianças. E então, abrindo essas frestas e entrando dentro delas, criamos o FIL- Festival Internacional Intercâmbio de linguagens para fazer esse cruzamento de mundos.

Leitura dos textos da Quebecoise Suzanne Lebeau

FIL 2012 – Leitura dos textos da Quebecoise Suzanne Lebeau

comKids:   Você é dramaturga, diretora teatral, escritora e organiza um projeto, o  FIL,  que procura  integrar as várias linguagens artísticas. Qual a receita? O que a move para isso?

Karen: A receita é respirar bem e seguir em frente. Considerando os desafios como desafios e não como impedimentos. Cruzar mundos e fazer contato entre eles, me anima a viver, me atiça a curiosidade que gosto de ver provocada nos outros também. Isso emociona, nos torna mais vivos, muito vivos e bem dispostos.

comKids:   O que você define como cultura da infância?

Karen: A cultura da infância é o que faz sonhar e é também o que ajuda a criança a crescer saudável, em todos os sentidos. É também a cultura das múltiplas possibilidades, conteúdos aprofundados, dedicados especialmente à compreensão de que a criança precisa encontrar o seu lugar no mundo e que temos a missão de ajudá-la a crescer, essa tão difícil tarefa, no mundo injusto dos adultos. Essa cultura se transmite de criança para criança, de adulto para criança, de criança para adulto e, vejam só, de adulto para adulto…a cultura da infância é tradição, é contemporaneidade, é delicadeza e é multiplicidade de linguagens.

comKids:    O Centro de Referência Cultura Infância está completando 10 anos de atividades, quais as maiores dificuldades enfrentadas ao longo deste período?  E as conquistas?

Karen: As maiores dificuldades: convencer aos diversos governos da importância do “lugar” da criança em nossa cultura. Fazer com que existam esses ïtens” em todos os orçamentos governamentais; seja do Estado, do Município ou Governo Federal; programas transversais dos ministérios, secretarias e que se pense a curto, médio e longo-prazos… independente das mudanças do poder. Temos que priorizar a criança em nossa cultura. Respeitá-la. Entender que quando falamos da “criança” brasileira, falamos das mil e uma crianças: das crianças ribeirinhas, das crianças indígenas, urbanas. Estamos falando de identidade, cidadania e certeza de um mundo mais possível. Mas precisamos de convencê-los disso já. É urgente! Colheremos o que plantarmos.

Não sinto (ainda) que tenhamos conquistado definitivamente os órgãos governamentais. Ainda passamos por tantos altos e baixos… Nesse momento, em 2013, somos respeitados aqui na cidade, pelos dez anos de conquistas junto ao público. Talvez essa seja a maior conquista; o público, as crianças que cresceram vendo encantamentos aqui nesse espaço (Centro de Referência Cultura Infância/Teatro Municipal do Jockey). Continuar é também uma grande e presente conquista diária!

comKids:   O momento hoje no Brasil está propício para projetos voltados ao público infantojuvenil?

Karen: Sim, está. Existem editais novos, novas possibilidades de produções e realizações. Mas está propício também aos oportunistas de plantão…basta ver um edital novo que surgem pessoas sem noção alguma sobre o contato com  acultura da infância, tentando se fazer passar por um expert no assunto. Esse é um assunto que exige muito mais do que uma inscrição num edital para se conhecer. Abramos os olhos.

fil 2011 - Um amigo diferente?, Brasil - Cia Os Inclusos e os Sisos Foto Ilana Bessle

FIL 2011 – Um amigo diferente?, Brasil – Cia Os Inclusos e os Sisos Foto Ilana Bessle

comKids:   Olhando para o passado, e comparando com o presente, como você vê este momento para quem se dedica a tocar um projeto como o Centro de Referência Cultura  Infância? Já teve dias melhores?

Karen: Olhando para o passado, sentimos que esse é o melhor momento. Somos compreendidos pelo governo municipal, ganhamos uma década de provações e ganhamos conhecimento aprofundado para seguir pra frente e avante! Temos uma história, provada e sempre a comprovar. Mas, temos uma história.

comKids:   O que falta no Brasil hoje, pensando nesse universo de público?

Karen: Hummm… mais fácil é mapear o que temos. Temos coisas lindas: iniciativas maravilhosas em todo o país; Mostra comkids em Sampa, Casa de Ensaio, no Mato Grosso, festivais espalhados de várias linguagens diferentes, pessoas seríssimas dedicadas a essa causa… nos falta muuuuuiiiito, quase tudo, mas estamos construindo, todos os dias.

comKids:   Em relação à criança, como você  a vê no contexto atual? Nossa sociedade esta sabendo lidar com a criança nesse momento em que as tecnologias chegam a esse publico em uma velocidade impressionante?

Karen: Nossa sociedade parece muito pouco nossa, mal se sabe, como saber lidar com uma criança assim? É hora de começarmos a nos conhecer, para podermos “apresentar” o mundo de forma mais possível para as crianças. Temos que nos apropriar dos conteúdos digitais, ganhar nesses conteúdos mais Brasil, mais criança brasileira. Menos joguinhos de lutas imbecis… colocar a criança no lugar de protagonista dessa cultura. Saberemos lidar com isso? Conseguiremos entender que aprendemos com elas, as crianças? Quem domina hoje a tecnologia do dia-a-dia? Temos que perceber que sabemos muito pouco e que o melhor mesmo é aprender com as crianças sobre o mundo e o bom uso da tecnologia.(rs)

comKids:   Você escreve e dirige  peças infantis premiadas, muitas delas foram transformadas em livro. Fale sobre isso.

Karen: Meu mundo é mais o das imagens, do que o da escrita, mas adoro colocar as imagens, as sensações e emoções em forma de escrita. Escrevo imagens, na verdade. Entonces, o que escrevo fica bem pertinho da literatura, mas fica namorando forte com o cinema e com o contato presencial, que está no teatro. É tranquilo andar de um mundo para outro, mesmo porque estão misturados dentro de mim. Quase nunca sei quando vão se transformar em livro, série pra TV , teatro ou filme. Eles são tão independentes de mim…(rs)

fil 2011 - 20 minutos sobre o mar, Espanha Foto_Ilana Bessler.

FIL 2011 – 20 minutos sobre o mar, Espanha Foto_Ilana Bessler.

comKids:   Quais as temáticas que você tem abordado na literatura quando escreve para criança?

Karen: Ah… isso varia muito. Varia de acordo com o que eu vario. Sou muito desvairada (rs) . Hoje estou escrevendo Histórias de Naná, mas 90% do texto são as indicações do que se passa na cena. Quase não há palavras. Mas o que estará em cena é a dramaturgia das crianças. Sempre as consulto. Experimento meus textos com elas e reescrevo, reescrevo, até ficar sem excessos. As crianças são minhas mestras.

comKids:   O que é um bom produto cultural para criança, como você define?

Karen: Produto cultural: o que faz bem, em todos os sentidos. Que seja um produto cultural, porque ganhou mérito, excelência, qualidade, aprofundamento e não porque é um produto de venda fácil. Não é uma matemática impossível. A Mostra comkids prova isso, o FIL também…e por aí, vai…

comKids:   Em uma entrevista você se referiu que  nesses  10 anos as crianças que acompanharam esse processo cresceram. Você afirmou na oportunidade que a questão não é só formar e sensibilizar novos públicos. É também acompanhar o público que você já formou. Como você faz esse acompanhamento?

Karen: Fizemos, mais do que público, amigos bacanas, interessantes, comprometidos com o que há de bom, são ligados. O pessoal volta para o teatro, fala com a gente pelo facebook, vai nos shows, peças, oficinas, laboratórios, voltados para os jovens… sempre nos contam coisas boas que assistiram e fazem sempre elaborações de conteúdo crítico e também comparativo… refinaram suas percepções e cultivam amizades. Somos sortudos!

Sobre o FIL:
19 a 29 de setembro de 2013, no Rio de Janeiro
Mais informações em:
http://www.fil.art.br/