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Por: comKids (Redator)

“O menino que engoliu o sol” foi ao Japão. A série de animação da Pólofilme, com direção de Patrícia Alves Dias e produção artística de Joel Pizzini, foi a única representante brasileira finalista do Japan Prize, a tradicional premiação internacional que desde 1965 elege os melhores conteúdos produzidos em mídia educativa.

Além da série brasileira, outras obras latino-americanas, produzidas no Chile (Pichintun-CNTV Infantil), na Argentina (Ventanas al mundo – Pakapaka), na Colômbia (¿Qué harías tú?- Señal Colombia) e no Equador (Escuela sin Pizarra – Headlight Comunicaciones), também foram selecionadas como finalistas do Japan Prize 2020.

Série brasileira “O menino que engoliu o sol” (Pólofilme)

A série brasileira de animação “O menino que engoliu o sol” foi selecionada como finalista na categoria Pre-School. Produzida no Mato Grosso do Sul, trata com delicada poesia da relação de um menino com a natureza no Pantanal. Também com cenas em live-action do bioma brasileiro, a série é inspirada no universo do poeta Manoel de Barros e na mitologia indígena Guató. Mistura linguagens estéticas, técnicas artísticas e ainda aborda a questão dos medos das infâncias. A narração especialíssima é do cantor Ney Matogrosso.

O comKids convidou a diretora Patrícia Alves Dias para um diálogo sobre esse processo de criação. Realizadora e criadora de cinema infantojuvenil, ela já teve um trabalho premiado no Japan Prize em 2007, quando o filme “Matinta Perera”, da série “Juro que vi”, cujo projeto coordenou na Multirio, recebeu o Japan Foundation President’s Prize.

Patrícia contou ao site comKids sobre a origem do projeto “O menino que engoliu o sol”, desde o convite feito por Joel Pizzini, produtor artístico da série, para criar um projeto experimental para crianças há cerca de quatro anos.

Patrícia Alves Dias, diretora e roteirista da série finalista

Adaptação de livro para série
“Joel me convidou para criar um projeto experimental para crianças… Minha filha Lia, naquele mesmo momento, havia ganhado de Ricardo Pieretti – amigo comum, hoje sócio da POLO e co-roteirista – o livro infantil homônimo da série. Quando acabou o texto, ela me disse: “dá um filme”. Comecei a estudar o livro e achei que ela tinha razão. Resolvi propor para Joel uma adaptação livre do texto de Ricardo em formato de série infantil para o edital das TVs Públicas.” 

A criação do projeto
“Quando começamos escrivinhar o projeto, e decidimos apresentar para o edital das TVs Públicas/FSA/EBC, o filme 500 almas, de Pizzini, fotografado pelos grandes Dib Lutfi e Mário Carneiro, era a semente inspiracional do novo projeto para as crianças. Lá estava Manoel de Barros e as pistas para a construção poética do texto e da imagem a partir da língua Guató. A ideia de um povo argonauta que vivia nas suas canoas e eram guardiões do fogo – quando deixavam seus acampamentos levavam a brasa com eles, apoiou a construção central da história e as experimentações plásticas com as técnicas em carvão e aguadas. Um menino que tinha medo do escuro e da solidão e encontra sua própria luz depois de experimentar e aprender com a natureza e os ensinamentos dos mais velhos, Donanna.”

Relação intergeracional representada na série.

Inspirações
“Quanto à opção de um processo de seguirmos uma experimentação contínua, nos inspiramos em Alê Abreu  (“Pássaros” e “O Menino e o Mundo”) e também “aconselhada” pelo poeta maior ” Manoel de Barros (a partir da pesquisa de sua obra), revisitamos kandisky e Miró, Martha Barros, revisitamos a gramática guató, e nos permitimos recriar um texto em que as palavras podiam ser (re)inventadas tal qual fazem as crianças da faixa etária do público  (“vou me desmolhar”) ou subverter a gramática, as funções dos substantivos que se tornariam verbo, ou eliminar os pronomes possessivos. O rio era uma cobra e o Menino, um rascunho de pássaro.”

A criação dos bichos
“Os bichos da natureza não foram planejados previamente. Eles apareciam por semelhanças, das manchas resultantes do encontro entre os pigmentos de aquarelas e a água que umedecia os papéis. Eles emanavam luz a ponto do Pantanal ficar todo branco (direção de arte de Alexandre Madeira). No vazio do lay-out podia haver qualquer coisa em que a criança completasse a cena, a narrativa…. Os caracteres eram sugestões de animais. A criança decide que bicho ou coisa seria. À noite, o menino é animado em carvão (ou “a chama apagada” da madeira e da fuligem. Concepts de Paulo Visgueiro e Frata Soares). Os bichos e suas morfologias, meio fantasiosos, meio reais, ditaram as regras físicas de um lugar com gravidade própria para aquele universo (direção de animação de Marcus Vinícios e direção de composição Dinho Marques). Abandonamos as regras clássicas das gramáticas, entre elas a animação.”

Formato da série
“Quanto ao formato, a série é, ao mesmo tempo, procedural e seriada. Um episódio é independente do outro, cada dia o Menino vive uma experiência e passa por um aprendizado com a natureza, e cria invenções fantasiosas para solucionar o que mais lhe afeta: o medo da noite. Até que no último dia, consegue engolir o Sol. Mas se dá conta que roubar a luz do Sol – como o mito dos guatós – não é a solução. Cada um tem uma luz própria.” 

Fomes e vazios
“Nas noites, por causa do escuro, não tem fome, tem um vazio na barriga. Donanna diz que ele tem ‘doença alimentar’. O mito do fogo dos Guatós nos deu elementos para falar com as crianças sobre seus medos, a falta e o abandono. Na vida pregressa da personagem, Manoel é um menino pantaneiro criado por Donanna, sua Tia Avó, porque perdeu os pais. No episódio 7, no interior do casebre, após o diálogo do menino com Donanna (personagem adulta que marca o encontro e a relação intergeracional), quando ele anuncia que quer comer luz, baseado na experiência da manhã, ouvimos Ney Matogrosso: “Donanna sabia que era na noite que passarinho ficava órfão.”

A criação dos bichos na série de animação brasileira

   

Narração de Ney Matogrosso 
“Joel Pizzini, o produtor artístico do MENINO tem uma relação muito próxima de Ney. Em Caramujo Flor, seu primeiro filme, Ney faz sua primeira atuação no cinema. O longa Olho Nu é um filme-ensaio sobre a vida do Ney constituído com material de arquivo sonoro, fotográfico e audiovisual do artista. Víamos em Ney a representação de que nos tempos que habitou o Pantanal, andava em cima de jabutis e cantava músicas guaranis de autoria de seu Avô. Víamos nele a figura de um pássaro e, como a personagem é rascunho de pássaro, como Manoel de Barros diz que todos somos, convidamos Ney para contar essa história… Na década de 60, quando Ney ainda morava em Brasília,  ele se voluntariou para ser enfermeiro para cuidador de crianças terminais e nas noites contava histórias para elas. Na gravação, lembramos ao Ney esses tempos e pedimos que ele contasse a história do MENINO QUE ENGOLIU O SOL para as crianças, fossem pantaneiras, fossem livres e na natureza, ou as confinadas – em seus distintos sentidos.” 

O Pantanal
“Há uma intencionalidade no projeto em trazer à tona a discussão – sobretudo para os adultos, familiares e educadores – a dualidade “confinamento de crianças versus estar na natureza”. Eleger uma história que tem como centro uma criança e sua relação de respeito e diálogo com os seres ao seu lado, aprendizado e experimentação na Natureza, inspirada em um povo originário e sua cultura dizimados brutalmente e gradativamente por invasores – de diferentes tempos – é uma crítica ao antropocentrismo que nos interessa emergir. A relação da criança com a natureza em sua dimensão ontológica, compreendendo assim todas as infâncias, se manifesta em “O menino que engoliu o sol” de forma poética, mas crítica às mazelas produzidas pela modernidade tardia em que as crianças são as maiores vítimas. As queimadas, o confinamento e venda ilegal dos seres da floresta, a matança e desculturação dos povos originários… Para falar sobre isso tudo, achamos que poderíamos fazer com beleza, poesia, fosse nas texturas, nos tempos, nos ângulos….Os ensaios documentais da natureza pantaneira, criados pelo amigo e realizador Maurício Copetti inspiraram muito a construção dos lay-outs das cenas em animação do exterior. Elas eram compostas em diálogo e muito a partir do olhar do Maurício e de como os seres nos olham. A criança estará no meio do Pantanal, nadando e brincando com seres que podem ser uma ariranha ou um ser fantástico, tão fantasiosos como os animados. Afinal, o devaneio das crianças e dos poetas nos ensinam…” 

“O Menino que engoliu o sol”
Produção: Pólofilme
Direção: Patrícia Alves Dias
Roteiro: Patrícia Alves Dias e Ricardo Pieretti Câmara
Supervisão artística: Joel Pizzini
Episódios: 13
Duração: 7 min.

O menino que engoliu o sol. Imagem: divulgação